• Via di San Gallicano, Rome, Italy
  • (39) 06 8992225
  • dream@santegidio.org

A origem do Programa DREM

Depois da paz em Moçambique, a Comunidade de Santo Egídio apercebeu-se do drama crescente da SIDA naquele país: tantíssimos mortos, muitos entre os jovens, também membros da Comunidade. O mundo científico, os governos locais, a própria Organização Mundial da Saúde, identificavam na prevenção a única abordagem possível contra o HIV/SIDA em África.

O fracasso desta escolha, aparentemente muito económica mas pouco científica, era evidenciado pelo crescente número de mortos em toda a África, pela impressionante redução da esperança de vida nos países atingidos e, sobretudo, pela não contenção da infecção. Aumentavam, ainda, apesar das campanhas de educação sanitária, o estigma e a rejeição dos doentes e, amiúde, também das respectivas famílias. Um povo, como o moçambicano, continuava a sofrer mesmo depois da paz. Um grupo de médicos-investigadores pertencentes à Comunidade de Santo Egídio, partindo do evidente fracasso das escolhas sanitárias feitas até então, avançou uma nova hipótese clara de que a prevenção deveria ser associada à terapia como seu natural complemento para a redução da infecção. Desta convicção com sólidas bases científicas, iniciou, desde 1999, um trabalho de advocacy junto do Governo moçambicano para que legalizasse o uso da terapia no país e permitisse a importação dos medicamentos anti-retrovirais utilizados no mundo ocidental. O que, até então, não era possível no país. Compreensivelmente, as autoridades expressaram dúvidas e receios: uma tentativa análoga na África do Sul tinha-se rapidamente gorado deixando consequências sociais bastante problemáticas. Que garantias poderia dar a Comunidade no plano da continuidade e da sustentabilidade, pelo menos a breve prazo? Com efeito, quem financiaria e sustentaria uma linha de intervenção chumbada à partida e nem sequer tomada em consideração por todos os actores competentes internacionais e nacionais?

Aviou-se uma negociação com as autoridades moçambicanas e, contemporaneamente, uma acção de aproximação ao problema da SIDA através da assistência a domicílio aos doentes e o tratamento das infecções oportunistas. Acumularam-se muitos “nãos” ao pedido de introdução da terapia mas, após dois anos intermináveis para os doentes, graças aos grandes méritos adquiridos pela Comunidade na mediação de paz, chegou o primeiro sim àqueles italianos muito sonhadores e aparentemente pouco realistas. É verdade: não havia um plano financeiro, mas havia a insistência daquela viúva “evangélica” que pede justiça aos juízes deste mundo e do amigo inoportuno que leva a abrir uma porta que nunca se abriria a meio da noite. Finalmente, em 2002, foi inaugurado o primeiro centro DREAM para a prevenção e o tratamento da SIDA, junto do Hospital de referência para a Tuberculose, novo lazareto da época moderna, nos arredores de Maputo. Foi posto aí para que não desse muito nas vistas, para que não fosse demasiado acessível e não interferisse com os programas de saúde do país. Um centro na periferia geográfica e também humana para a vida de muitos doentes que começaram a afluir.

A periferia, eixo permanente da vida da Comunidade, hoje indicada pelo Papa Francisco como ponto de partida para transformar o mundo. Também para a Comunidade de Santo Egídio, uma periferia de onde partir para inverter a decisão que impossibilitava a difusão da terapia anti-retroviral em África.

A nossa era e é uma visão. E quem persegue a força de uma visão, transforma o mundo e liberta-se da repetição e da conservação do que já existe.

Assim, da periferia, DREAM começou a dar os primeiros passos na certeza que não era possível aceitar uma ideia absurda, mas naqueles anos largamente partilhada: que a África deveria ser deixada com 30 milhões de doentes de SIDA sem terapia que, no arco de poucos anos, assumiria quase as dimensões de um genocídio. Era, pois, preciso trabalhar para demonstrar que a terapia anti-retroviral era possível com o mesmo nível de qualidade, de excelência e de eficácia presente nos países ocidentais.

Ao empenho pioneiro de DREAM no tratamento da SIDA no continente, associaram-se apenas algumas vozes do mundo científico internacional, cientes que programas de tratamento podiam ser realmente introduzidos também em África. Uma consideração deste tipo foi expressa pelo presidente da International AIDS Society, Joep Lange, na Conferência Internacional sobre a SIDA de Barcelona, em 2002: “Se somos capazes de levar a Coca-Cola fresca para qualquer canto remoto da África, não deveria ser impossível fazer a mesma coisa com os medicamentos”.

Começaram, com o tempo e com a evidência da experiência, a surgir dúvidas sobre as inamovíveis certezas das Agências Internacionais que no início, nem sequer tomavam em consideração a hipótese de introduzir a terapia nos países em vias de desenvolvimento.

DREAM nasceu precisamente para contrastar a SIDA em território africano: para tornar possível e acessível, não só a terapia anti-retroviral, mas também todo o complexo de medidas e factores que a pudessem tornar eficaz. Em particular, trata-se da educação à saúde, do apoio nutricional, do diagnóstico avançado, da formação do pessoal, do contraste à malária, da tuberculose, das infecções oportunistas e, sobretudo, da malnutrição.

A terapia tornou mais eficaz a própria prevenção. Hoje, já não se tem medo do teste, da angústia de conhecer o que antes era uma declaração de morte antecipada: saber, significa agora, proteger-se a si e aos outros. As mulheres, marginais e marginalizadas também por causa da doença, tornaram-se no centro de uma consciência nova e representam a possibilidade de reagir e de viver o início de uma nova vida. Com elas, os homens, a aldeia, os vizinhos. As crianças, nascidas saudáveis, já não vão alimentar os milhões de órfãos destinados à rua ou a famílias de avós e crianças, sem mais nenhuma geração intermédia.

Fica-se maravilhado perante o impressionante sucesso do Programa, da sua rápida difusão em África e da influência exercida nos Governos e nas Agências Internacionais para que modificassem a abordagem para com as terapias anti-retrovirais. Com efeito, os resultados alcançados tiveram um papel evidente também junto da Organização Mundial da Saúde na remodelação dos protocolos terapêuticos para a África.

DREAM mostrou a sua força certamente no plano científico; basta pensar na solidez da cultura dos seus membros, não só pessoas de boa vontade, nem utópicos sonhadores mas cientes portadores de certezas científicas amadurecidas no estudo e na investigação sobre as doenças infecciosas. A eficácia do Programa substanciou-se na aplicação prática dos protocolos terapêutico-diagnósticos, utilizados normalmente no Ocidente, em África com doentes e com a ajuda de profissionais africanos. Podemos afirmar que uma grande parte do sucesso de DREAM se deve à original compenetração da componente científica académica e da prática aplicativa.

Facebooktwittergoogle_pluspinterestlinkedinmail

Esta página também está disponível em: itItaliano enEnglish frFrançais esEspañol