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08/02/2012

Salvando o planeta

Por Paola Rolletta

Published on UP, TAP inflight magazine

Distribui conselhos e sorrisos às mulheres que chegam bem cedo de manhã ao Centro DREAM, na Manga, cidade da Beira, no centro de Moçambique. É Josefa, uma das primeiras pacientes HIV+ deste centro de saúde e do programa DREAM (Drug Resources Enhancement against Aids and Malnutrition). Hoje, são mais de um milhão, as pessoas que beneficiam do programa, quinze mil as crianças que nasceram sãs através da prevenção vertical, programa implementado pela primeira em Moçambique, há quase 10 anos, e hoje presente em outros países africanos.


Chamo-me Josefa, sou moçambicana, mãe de cinco filhos. Foi precisamente no dia 10 de Junho de 2003 que conheci o Centro DREAM da Manga, na Beira.

Fiz o teste do HIV porque estava grávida e disseram-me que era bom saber tudo sobre o meu estado de saúde. Eu não me sentia doente e não queria fazer o teste. Finalmente me convenci e aí fui. A distância entre o centro pré-natal para o centro DREAM é pouca, mas os pés pesavam muito para chegar porque toda a gente dizia que as pessoas que lá iam têm SIDA...

Fui muito bem atendida, fiz o teste e chegou a vez de ouvir os resultados. Tinha medo, mas queria conhecer a resposta. A enfermeira começou a conversar comigo, e aos poucos me disse que era seropositiva. Também me explicou que isso não era uma condenação à morte, como ainda muita gente pensava. Como eu própria pensava...

O que dizer à minha família? Qual seria o meu futuro?
Fui para casa e comecei a chorar. Pensava nas minhas crianças que não iam ter o amor da mãe. Porque tinha de acontecer isto comigo? Chorei durante um mês!

Comecei o tratamento. Nunca faltei e sempre tomei os comprimidos. De manhã e à noite. Chegou o dia do parto e tive o bebé. Eu já não chorava mais. A confiança foi a minha salvação. O meu bebé foi a minha salvação!

Tudo o que me diziam os médicos do DREAM, eu fazia. Convencer o meu marido a fazer o teste foi muito difícil. Mas um belo dia, ele apareceu no Centro. Os pés dele também pesavam... Fez o teste e deu positivo.

A nossa filha é seronegativa. Foi confirmado aos 18 meses. Eu, mãe seropositiva, gerar uma filha seronegativa. Naquele dia saltei de alegria!

Nos meses seguintes, os operadores do DREAM propuseram-me que viesse trabalhar, contando a minha experiência para mobilizar os outros pacientes para o tratamento. É o que faço agora, depois de ter participado de um curso de formação. Parte do meu trabalho é aqui no Centro, outra parte consiste em visitar os pacientes nas suas casas, para dar conselhos, controlar o cumprimento da medicação, ensinar a cozinhar as papas, recordar as regras de higiene… .

É um trabalho delicado, este, na casa das pessoas. Às vezes estão presentes visitas, que não conhecem o estado do nosso paciente. Então comunicamo-nos por códigos. Eu digo: ‘Passei para cumprimentar, até outro dia’. Se ele responde ‘obrigado por ter passado, eu vou-me embora. Se ele diz ‘entra, fica um pouco para conversar’, é sinal de que posso entrar e fazer o meu trabalho.

O que me move é um pensamento bem forte na minha cabeça: se eu consegui salvar a minha filha, outras mães podem salvar-se e salvar a vida das suas crianças. Hoje, o meu sonho tornou-se a minha missão!”

Josefa é uma entre as milhares de mulheres que desde 2003 estão sendo assistidas nos centros DREAM, no programa de prevenção vertical com a tri-terapia, um programa desenhado e implementado pela Comunidade de Sant’ Egídio em Moçambique em 2002, no âmbito das políticas contra o HIV/SIDA do Governo.

DREAM actualmente é implementado em dez países africanos: Moçambique, Malawi, Tanzânia, Quénia, República da Guiné, Guiné-Bissau, Camarões, Congo RDC, Angola e Nigéria.

O DREAM privilegia as mulheres grávidas e a dupla mãe-filho porque é a escolha para o futuro de África. Nos Centros, as mulheres aprendem que os bebés de mães seropositivas podem ficar infectados de três maneiras: o vírus pode-se transmitir durante a gravidez, no momento do parto e através da amamentação. Sem nenhuma forma de prevenção, existe 30% de probabilidade que o vírus passe ao seu bebé.

Com a tri-terapia anti-retroviral a partir da vigésimo-quarta semana de gravidez até o nono mês depois do parto para poderem amamentar, 98% dos bebés nascidos não são infectados. As mães continuam a ser tratadas. A única maneira para prevenir o aumento exponencial de órfãos.