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Uma história da Tanzânia – A amizade dá vida ao futuro: a longa viagem de Hidaya da doença à esperança

Hidaya é uma mulher tanzaniana com cerca de trinta anos. Mas é também uma querida amiga de todos os operadores DREAM de Arusha, um exemplo de coragem e de força de vontade de cura para muitos pacientes do centro, uma prova de que o amor e a esperança podem abrir ao futuro e serem mais fortes da doença e do desespero.
Hidaya conheceu DREAM há pouco menos de dois anos atrás, quando a SIDA já tinha começado a marcar o seu rosto com o sarcoma de Kaposi. Tinha-se apresentado no centro de Arusha em silêncio, acompanhada pela mãe, uma mulher que nunca a abandonaria neste longo período de tratamento.
A casa de lama e de lata delas situa-se no bairro de Ngarasero, na periferia de Arusha. É o bairro que está mais perto do centro DREAM, no caminho para o aeroporto, o bairro donde provém a maior parte dos pacientes em tratamento com o Programa. Hidaya e a mãe tiveram conhecimento da possibilidade de tratamento, através de alguns pacientes, encheram-se de coragem e vieram ter connosco.


Hidaya estava muito doente. A SIDA tinha atingido um estado muito avançado. O sarcoma de Kaposi, juntamente com outras doenças oportunistas de que sofria, tinha-lhe devastado o rosto, impedia-lhe de deglutir, estava a prejudicar-lhe a vista.
O seu rosto era a imagem da fúria horrenda da SIDA, da sua maldição. Quando os olhares dos outros doentes, se pousavam nela, transmitiam plasticamente a ideia do estigma da doença, o medo quase físico de serem contagiados.
Diante da sua situação, tinha-se a impressão de uma doença verdadeiramente inexorável, que se encarniçava numa pobre mulher negando-lhe qualquer perspectiva de salvação. Qualquer pessoa ter-se-ia resignado à grande força daquela doença. Ter-se-ia rendido perante a aparente impossibilidade de fazer alguma coisa.
Mas a presença muda e sofredora de Hidaya no centro DREAM era um pedido que não se podia nem se queria iludir. Era preciso muita tenacidade e fantasia no amor. Era preciso ser paciente na dificuldade e fiéis na esperança. Era preciso acreditar que o bem, que a amizade, os tratamentos, pudessem manifestar uma força maior da do mal. Pudessem fazer regredir a doença.
O problema principal era a dificuldade de Hidaya de deglutir. Não só ingeria com dificuldade os medicamentos (era quase impossível ministrar-lhe os comprimidos) como tinha uma extrema dificuldade em comer. Estava num estado de contínua e profunda fraqueza, porque não se podia nutrir como deveria.
O primeiro passo foi o de mudar os medicamentos, de lhe ministrar os anti-retrovirais sob forma de xarope, os mesmo que se dão também às crianças (em quantidades maiores, obviamente). O segundo foi o de trabalhar para uma dieta pensada propositadamente para Hidaya, um regime alimentar possível, que lhe garantisse um suplemento nutritivo adequado e que lhe desse nova força. 
Mas depois, era preciso enfrentar o problema constituído por um sarcoma muito agressivo, que ameaçava atingir também os pulmões.
Infelizmente as suas hospitalizações não tinham dado até então nenhum resultado tangível. A terapia era sempre a mesma: faziam-se-lhe algumas radiografias, ministravam-se-lhe alguns soros. Os médicos estavam todos decididamente pessimistas acerca do seu diagnóstico e sugeriam abertamente aos operadores DREAM que iam falar com eles de não a internarem, pois já não havia mais nada a fazer.
Mas há sempre alguma coisa a fazer. Não se pode resignar assim à perda de um amigo. DREAM conseguiu entrar em contacto com alguns médicos que trabalhavam no hospital de Moshi, uma pequena cidade situada a cerca de uma centena de quilómetros de Arusha e que estavam disponíveis para intervir bloqueando, antes de mais, o avanço da doença com ciclos de quimioterapia e depois, removendo as formações cancerosas da cara de Hidaya com duas operações cirúrgicas.
É certo que também as dificuldades não faltaram. O sarcoma tinha efectivamente alcançado os pulmões. E, depois dos primeiros tratamentos de quimioterapia, os médicos tiveram de interromper por um certo período o tratamento, pois as condições de Hidaya, em particular a sua anemia, não permitiam de proceder rapidamente. Enfim, uma infecção na orelha tinha-se propagado até aos olhos fazendo com que deixasse de ver.
Mas Hidaya queria viver. Uma vontade grande, determinada. Que a levou a resistir e a perseverar até quando foi, finalmente, possível iniciar o tratamento cirúrgico. A primeira operação, há algum tempo atrás, resultou muito bem (os seus olhos recomeçaram a ver) e espera-se que a próxima seja ainda mais resolutiva.
O que marcou todos, no centro DREAM, na história de uma mulher que viveu e que vive uma condição tão difícil, tão desesperada, foi justamente a sua vontade de continuar com tenacidade a lutar contra o mal.
E, por sua vez, também Hidaya ficou maravilhada pela dedicação e pela tenacidade dos operadores de DREAM. Nela, força e coragem alimentaram-se cada vez mais, de maneira surpreendente, não só para que as coisas corressem melhor, mas também porque via crescer o afecto que a rodeava, porque ela era importante para alguém, porque o desejo de muitos era o de vê-la ficar melhor.
Na amizade e na gratidão que pouco a pouco se foram construindo com todos os operadores do centro de Arusha, Hidaya pediu com sempre maior convicção para ser ajudada. Nos seus olhos e nas suas palavras o sofrimento deixou pouco a pouco cada mais espaço à esperança da cura.
Ao desespero de uma vida que parecia não poder aguentar mais, substituiu-se o desejo e a certeza do futuro. A amizade e a esperança geraram efectivamente o futuro, materialmente. Fazendo surgir do nada aqueles dias e aqueles meses, também longínquos que cada um de nós “sãos” imagina naturalmente para si.
No início Hidaya nunca falava do amanhã. A quem partia dizia sempre que aquela era a última vez que se encontravam. Nos últimos tempos, pelo contrário, começou a fixar encontros também a longo prazo, seja com os amigos que voltariam depois de quatro ou cinco meses, seja com o cirurgião que em Janeiro terá de operá-la novamente para libertá-la definitivamente dos sinais da doença.

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