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Entrevista a Pacem, já activista DREAM e agora coordenadora do centro de Mthengo wa Ntenga (Malawi)

Como e quando é que encontraste DREAM?
 
Encontrei DREAM em Agosto de 2005. Depois de ter feito o teste para o HIV e de ter resultado positiva.
 
Na verdade, estava bem. Era o meu marido, na época, que estava muito doente. Tentei estimulá-lo para ir fazer uma consulta, encorajava-o, falava-lhe da importância do tratamento. Mas ele não queria, tinha medo. E então, decidi dar o primeiro passo, comigo mesma, porque amava a vida do meu marido. Era para o ajudar. Era uma maneira para lhe fazer entender que podia conhecer o próprio estado de saúde, que não era demasiado complicado, que não era um problema.
 
E, pelo contrário, aquela consulta foi, para mim, um choque, uma prova terrível. Resultei seropositiva, tinha a SIDA. Morreria em breve. Depois da consulta e do teste, a única coisa em que conseguia pensar era: “Este é o fim da minha vida!”.
 
Informei o meu marido acerca do meu estado. Não foi nada fácil e por outro lado, isso não o incentivou a ir ao médico, apesar de estar bastante mal. Além disso, compreensivelmente, ficou ainda mais assustado. Mas não me desanimei, não desisti. Continuei a encorajá-lo e a insistir. Tinha-me informado um pouco mais, aqui e além e, então, contei-lhe algumas histórias de pessoas com SIDA que tinham começado um tratamento e que tinham melhorado.
No fim, o meu marido aceitou em fazer o teste. Acompanhei-o à consulta e estava com ele quando lhe disseram que era seropositivo. Pobre homem, estava desesperado!
Começou então uma fase muito difícil na nossa vida. Problemas de saúde, problemas económicos…
 
O meu marido estava bastante doente e tínhamos de procurar o dinheiro para retirar o tratamento antiretroviral no hospital estatal, medicamentos que custam 2500 kwacha malawiani [ao cambio actual 11,50 euros]. Fazíamos o melhor que podíamos para poder salvar a vida do meu marido, mas não era fácil. Ainda mais porque no mesmo período, tinham-me dito que tinha de interromper a amamentação da minha filha (tinha uma criança que ainda nem sequer tinha um ano e estava a amamentá-la). Para mim, tudo isso foi bastante difícil de gerir. O que é que iria dar à minha filha para comer? Todo o pouco dinheiro que juntava servia para comprar os medicamentos para o meu marido.
Foi então que um dos médicos do hospital estatal me falou de DREAM. Arranjei coragem e falei-lhe da minha, nossa, situação: o facto de que já não conseguíamos, que precisávamos de ajuda. Então, ele indicou-me o caminho do centro DREAM.
 
O que é que te marcou mais de DREAM?
 
Antes de mais, o facto de ter sido muito bem acolhida. Não me parecia um hospital! Tanto o aspecto exterior, pela sua estrutura; como as pessoas que encontrei naquele dia, naquele centro um pouco especial, eram pessoas que se disponibilizaram me assistirem em tudo o que a minha condição de saúde pedisse.
Fiz a aceitação e marcaram-me as análises do sangue e as consultas médicas. A seguir, comecei também eu a tomar os antiretrovirais, tal como o meu marido.
Comecei então a deixar de ter medo dos encontros, das consultas. Encontrando médicos, enfermeiros, pacientes, todos bem dispostos para comigo, comecei a ter mais coragem, a estar mais serena. A pensar que deveras, o facto de ser seropositivo não era por si só uma condenação à morte. Apercebia-me cada vez mais que recebendo a terapia adequada, todos nós doentes podíamos ainda ter uma vida à nossa frente.
Mal comecei a seguir a terapia – ou melhor, após algumas semanas – senti em mim uma grande mudança. Dantes nem sequer conseguia trabalhar, nem sequer me podia ocupar da casa. Tudo me cansava, parecia-me um esforço enorme: estava cansada dia e noite. Por sua vez, os medicamentos começaram a restituir-me as forças, davam-me a energia para fazer o que devia fazer. Mas também, posso dizer, restituíam-me a confiança em mim mesma e nas minhas possibilidades.
Assim, quando também a minha filha fez o teste e resultou seropositiva, fiquei preocupada por ela – era óbvio, era natural -, fiquei preocupada por saber que agora na família estaríamos todos doentes, mas, ao mesmo tempo, não me senti desesperada. Tinha feito o counselling e, deste modo, sabia que se podia fazer alguma coisa, que não era o fim.
A minha filha estava mesmo muito mal, mas, também ela, mal começou a terapia, começou a melhorar, a brincar e a crescer normalmente. Não havia comparação com o passado.
Gostaria também de acrescentar – falando de mim mesma – que a mudança enorme que senti em mim em relação ao passado não era apenas algo de meu, de pessoal. Podia-se ver isso também de fora. As pessoas já não me reconheciam em relação ao passado, e admiravam – posso assim dizer – o espectáculo da minha transformação, o facto de que estivesse melhor. Isto é, não só o facto que estivesse melhor… Admiravam também o facto de ter conseguido sair do abismo onde tinha caído de modo assim tão espantoso ao ponto de ser capaz de dirigir aos outros palavras de esperança, de encorajamento, de força.
 
O que é que DREAM fez por ti?
 
Diria simplesmente que DREAM tirou-me do nada e levou-me até onde me encontro hoje, até ao que sou agora. No fim de contas, fiz uma experiência simples, mas extraordinária, fundamental: passei do nada da morte ao tudo da vida. Da vida para mim e para os outros.
E é como se DREAM tivesse combatido por mim, para que tudo isto sucedesse, para que em mim voltasse a correr a vida. DREAM restituiu-me a vida, voltou a dar-me a esperança, deu-me toda a coragem de que uma pessoa necessita. Ou, pelo menos, aquela coragem que estava à procura, aquela coragem que nunca tinha recebido, mas que descobri ter apesar de ser – e ainda o sou – uma pessoa seropositiva e, portanto, marcada pela fraqueza.
Toda a minha vida mudou por causa do programa DREAM. E é graças a uma mudança do género que ontem era uma activista e hoje sou uma coordenadora.
 
Qual é a importância dos activistas no âmbito de DREAM?
 
No programa, os activistas revestem um papel muito importante.
São os olhos e os ouvidos dos nossos centros, mas também as pernas e as mãos dos nossos pacientes. São os que colhem melhor – porque estão em estrito contacto com os pacientes – os problemas e os pedidos de quem se dirige aos nossos centros. E, ao mesmo tempo, são o instrumento mediante o qual os próprios pacientes podem manter um contacto contínuo com DREAM. Se nalgum momento aquele contacto se interrompe, os activistas tentam restabelecê-lo, indo ao encontro dos que deixaram de vir ter connosco, indo à procura de quem vive com dificuldades concretas, indo explicar melhor o que não está completamente claro.
É este o sentido do trabalho de educação sanitária que todos os nossos activistas desempenham tanto nos centros como a domicílio, tanto no counselling em Mthengo como nas aldeias das áreas rurais circunstantes. Os activistas estão ao serviço dos pacientes quando lhes ensinam alguma coisa, quando lhes permitem saber algo mais acerca da própria saúde, acerca dos medicamentos que tomam, acerca das consultas que devem fazer.
Na verdade, a educação sanitária é uma das coisas que muda a fundo a vida das pessoas e, portanto, dos nossos pacientes. Muitos deles nem sequer imaginam o peso que – no bem e no mal – a higiene pessoal ou as escolhas nutricionais têm na vida de cada um de nós. Muitos não sabem como é possível melhorar a própria dieta ou as condições higiénicas das próprias casas, mas, sobretudo, não imaginam como tudo isto pode ser determinante, de modo positivo, para a vida deles. Pois bem, tudo isso é explicado – e precisamente pelos activistas – no momento da aceitação no programa DREAM ou nos tempos de espera no centro. E tudo isso faz a diferença para muitíssimas pessoas. Fazendo educação sanitária, descobrimos que podíamos conquistar o interesse, a estima, o afecto de muitos pacientes.
 
O que é que significa ser um activista DREAM?
 
Ser activista DREAM significa dar um testemunho aos outros. Daquilo que viveste, daquilo que viste. Esta é a principal diferença entre quem é um activista DREAM e quem é apenas um paciente DREAM.
Quando dás um testemunho e este testemunho é eficaz, um paciente pode, na verdade, começar a acreditar que há um futuro, para ele ou para ela. Pode começar a ter confiança no facto de que se começa uma terapia, tudo correrá pelo melhor.
Por outro lado, devemos dizer que o testemunho que damos não é só para os pacientes. Dirige-se também às pessoas de fora, às que não estão doentes, de modo que possam mudar a própria opinião em relação aos seropositivos.
Acho que nos temos de pôr de pé. Mais ainda. Temos de testemunhar em voz alta o que temos dentro de nós, o que recebemos, o que assimilamos. Temos de dar claramente o primeiro passo, em primeiro lugar, diante de todos. De modo que também os outros possam dar um passo na nossa direcção.
 
Quais são as maiores dificuldades do trabalho de um activista?
 
Aqui no Malawi há ainda muitas crenças tradicionais nas aldeias, nas áreas rurais. Infelizmente, ainda há pessoas acusadas de “bruxaria”, por exemplo. Este é o primeiro e o maior problema.
Muita gente precisa de receber uma educação específica sobre o significado de seropositivo e da SIDA. Não acreditam que exista um vírus HIV. Julgam que se possa ser “enfeitiçado” por alguém. Que um “feitiço” te pode fazer adoecer, que pode haver alguém que te odeie de tal modo ou que obtenha uma vantagem com a tua morte que convença ou pague um “feiticeiro” para te enfeitiçar. Deste modo, na aldeia, se alguém adoece, não se pensa que possa ter sido infectado de algum modo, mas que outros tiveram inveja dele ou que pensaram poder apropriar-se dos bens dele depois da sua morte.
Uma ignorância do género sobre as verdadeiras causas de uma doença tem como primeira consequência o facto de, para se curarem, em vez de irem para o hospital, procurem um “médico tradicional”. Vão ter com alguém que te ajude a curar – assim se pensa – com métodos iguais e contrários aos dos “feiticeiros”. Esta é uma prática difusíssima. Tanto mais que os “curandeiros” estão em todas as aldeias e os hospitais não; e muito mais porque a medicina tradicional custa muito menos da farmacêutica.
Mas essa prática cria enormes dificuldades a quem tenta levar adiante a luta contra a SIDA – como por exemplo, nós nos centros DREAM -, porque faz com que não poucos pacientes cheguem aos centros de saúde ou a nós de DREAM, só quando já são extremamente problemáticos, quando estão, muito, muito doentes. Muitas vezes, na aldeia, a ideia de uma consulta no centro de saúde mais próximo é vista como a última possibilidade, a que se tenta só depois de todas as outras hipóteses se terem revelado becos sem saída.
 
O que é que se pode fazer para este mundo das aldeias?
 
Não há dúvidas, de que se pode fazer muito. E estamo-nos a empenhar neste desafio.
É para contrastar todo o problema cultural e de mentalidade que acabei de acenar que estamos a fazer uma grande campanha de educação sanitária, sobretudo nas aldeias próximas do centro DREAM de Mthengo. Por exemplo, na aldeia de Mpote, organizámos em colaboração com o chefe da aldeia, verdadeiras “conferências” ao ar livre para explicar às pessoas o que se sabe acerca do HIV, como pode ocorrer a infecção e como é possível estar melhor se nos preocuparmo-nos em nos tratar.
Essas lições produziram resultados importantes, acho eu. Registámos com alegria, depois de termos dado tanta educação sanitária, um número cada vez maior de pessoas que vêm das aldeias para fazerem o teste, para conhecerem o próprio estado de saúde, enquanto que antes das nossas lições, era bastante raro que alguém se apresentasse espontaneamente. DREAM salvou muitas vidas. Agora as pessoas das aldeias começam a perceber, a aperceberem-se. As crenças na “bruxaria” perdem terreno e muitos, agora, começam a confiar naquilo que pode, deveras, salvá-los.
 
Que tipo de educação sanitária fazem em DREAM?
 
Uma educação sanitária que envolva os pacientes. O nosso problema é envolver os pacientes.
Por isso, durante a educação sanitária, os pacientes podem intervir, discutir. É um grupo de trabalho – o nosso – onde os pacientes contribuem com as próprias dúvidas, as próprias preocupações, os próprios problemas. Interessa-nos que nos digam o que sentem, o que pensam…, por exemplo, quais são as coisas que deveriam ser melhoradas, ou se têm problemas para chegarem ao centro, ou ainda se são discriminados na aldeia.
Além disso, a nossa educação sanitária não é abstracta. Se vemos que alguns pacientes não estão muito interessados, que se distraem… pois bem, mudamos de argumento de debate previsto para aquele dia, porque temos de ter a certeza de que estamos a estimular todos e cada um para nos escutar. Ou então, mudamos a nossa abordagem, a nossa maneira de nos dirigirmos a esses pacientes. O nosso objectivo é fazer com que os pacientes percebam exactamente o que estamos a tentar explicar-lhes.
Ao fim e ao cabo, o nosso objectivo – como o de DREAM – não é só tratar o doente. Queremos conquistar os pacientes. Conquistar a atenção deles, a vida deles, deixar-nos envolver e envolvê-los numa esperança e num trabalho comuns.
 
Portanto, trata-se de algo mais do que uma simples educação sanitária?
 
Digo sempre às activistas com quem trabalho, que o esforço principal delas deve ser o de construir uma amizade forte com os pacientes que conhecem, porque para nós são mais do que simples doentes necessitados de assistência ou de orientação, são amigos!
Os nossos pacientes devem poder repor toda a confiança deles nos activistas. Devem poder saber que se dizem alguma coisa à activista, ela manterá sempre o segredo. Devem poder contar com ela – ou com ele – em todos os casos. Devem sentir que é ela – ou ele – que lhes pode dar esperança, que lhes pode dar toda a coragem de que necessitam, que os pode apoiar no momento da necessidade. Por isso, a primeira coisa a fazer é construir uma amizade mais forte.
Graças a essa amizade, muitos pacientes acabam por encarar de maneira muito diferente a própria condição de estarem em tratamento num centro DREAM. Percebem que encontraram uma família, além de medicamentos, que encontraram amigos com quem falar, mães, irmãos, irmãs. Percebem que encontraram alguém com quem poder procurar respostas e soluções às próprias perguntas e às próprias dificuldades. Juntos.
 
O estar juntos é uma característica de DREAM. Juntos com os doentes… juntos entre os activistas. Como é que nasceu e o que é o movimento dos activistas, “I DREAM”?
 
O movimento nasceu como “Women for a Dream”, Mulheres para um sonho. Nasceu da escuta dos pacientes, em particular das mulheres, como uma resposta a uma necessidade delas de estarem juntas, para se encorajarem reciprocamente. Nasceu da escuta da opinião delas, das considerações delas, solicitando a atenção do ponto de vista delas sobre as coisas e tentando, depois, ir ao encontro daquelas mesmas exigências que tinham emergido.
No início, tivemos um grande número de mulheres inscritas e poucos homens mas, com o passar do tempo, constatámos uma melhoria, isto é, um aumento da presença e, agora, também muitos homens participam no movimento.
Isto é um facto muito importante, segundo a minha opinião. É o sinal de que as pessoas estão a começar a entender do que realmente se ocupa o movimento, que está a começar a ver a utilidade e os seus frutos.
 
Mas como é que vocês agem, concretamente?
 
Antes de mais, trabalhamos muito nas aldeias. Alguém de “I DREAM” pede aos responsáveis da aldeia a licença para falar às pessoas reunidas em assembleia. A licença é concedida e é dali, desses encontros, que tudo nasce. Que nasce a particular relação que se estabelece entre DREAM e os seus activistas de um lado e uma determinada aldeia e os seus doentes, do outro.
Muitos contaram que foram tocados e encorajados pelos encontros que organizámos. O que para nós é motivo de orgulho, é sem dúvidas uma enorme responsabilidade – porque temos pacientes que provêm de cerca de cinquenta aldeias -, mas, gostaria de dizer que é também uma extraordinária oportunidade. Se numa aldeia tivermos uma dezena de pacientes, poderemos entender muito melhor a realidade daquela aldeia, saber muito mais sobre a sua dinâmica e as suas dificuldades, sobretudo sobre as dinâmicas e as dificuldades dos seropositivos naquela determinada realidade. Tudo isso, por sua vez, permite-nos poder intervir com mais eficácia, melhorar a situação, mudar uma atitude ou uma mentalidade que se consolidou, ou então, dar uma ajuda concreta às pessoas, aos doentes.
Porque o problema não é só fazer counselling mas, também e, sobretudo, dar ajuda quando alguém está doente. Se há uma rede DREAM numa determinada aldeia, saberemos imediatamente se naquela determinada área há um certo paciente que não está bem e, deste modo, poderemos ajudá-lo.
A coisa mais interessante é que são os próprios pacientes a activarem a ajuda para os outros pacientes. Mas, por outro lado, constatámos que os nossos pacientes querem, cada vez mais, serem envolvidos no trabalho de DREAM. Quando há uma iniciativa qualquer, querem ser informados e participar, como por exemplo, no dia 1 de Dezembro, quando se celebra a jornada mundial contra a SIDA. Muitíssimos dos nossos doentes dão-nos a entender ou dizem-nos expressamente que querem estar connosco, trabalhar connosco. Não querem receber só notícias de modo passivo, mas querem participar. Se, por exemplo, vem alguém de DREAM de fora, da Europa, para visitar o nosso centro, muitos pacientes oferecem-se para participar no acolhimento, para organizar tudo, etc.. Quero dizer com isso que os doentes não querem só ser informados se alguém está a chegar, mas querem agir concretamente.
Para eles, tudo isso significa viver um testemunho pessoal, significa mostrar a própria gratidão pela ajuda que DREAM deu a todos nós!
 
Imagino que este trabalho seja uma fonte de grande satisfação, uma vez que vocês tocam com a mão todos estes resultados…
 
O nosso trabalho é, na verdade, um conjunto de boas notícias, já hoje, mas também, diria, com vista no amanhã. Podemos tocar alguns resultados com as mãos, mas outros podemos entrevê-los para o futuro…
Os activistas de DREAM trabalham para mudar o futuro. Os homens e as mulheres que conhecemos põem em discussão o modo tradicional de olhar para as diferenças de género, porque se deixam envolver do mesmo modo, homens e mulheres, revelam-se igualmente interessados e empenhados. Põem em discussão, de um modo revolucionário, o próprio modo resignado e de espera de viver, porque eles mesmos estão prontos a darem passos para a frente, além de fazerem com que a própria aldeia dê passos para a frente, mudando em primeira pessoa a própria mentalidade e fazendo mudar a pouco e pouco a mentalidade tradicional que se respira nas aldeias.
É nesta perspectiva que muitos dos homens e das mulheres do Movimento declararam estarem prontos a assumir mais responsabilidades, a levarem cada vez mais DREAM para as próprias aldeias, além de levarem cada vez mais as próprias aldeias ao encontro de DREAM.
Testemunhando antes de mais o que a Comunidade de Sant’Egidio está a fazer por eles. Porque muitos desses pacientes vieram a Mthengo quando estavam mesmo doentes e, hoje, após todos os tratamentos e a ajuda de que necessitavam, estão muito melhor. Querem dizer tudo isto a todos os que encontram.
 
Tens alguma história para nos contar?
 
Posso-te dar o exemplo de uma activista, a Verónica, que vivia aqui na aldeia com a sua bicicleta, para seguir a terapia. Uma mulher que, na verdade, vinha de muito longe, mais de 25 km de distância [a história de Verónica está acenada também no vídeo “Viva a África viva!”, na homepage do sito DREAM].
Pois bem, depois de ter visto que a Verónica era uma das mais fiéis do programa, que era escrupulosíssima no que se referia à terapia, que nunca faltava às consultas, falámos com ela, e perguntámos-lhe se queria usar a bicicleta para cuidar de outros pacientes e salvar-lhes também a vida. A Verónica ficou muito entusiasta desta proposta que lhe permitia tornar-se útil, viver concretamente a própria gratidão, estar concretamente ao lado dos muitos que têm o problema de estarem demasiado longe do nosso centro de Mthengo ….
Uma outra das activistas de que te poderia falar é de Alice Mogomu. Depois de ter visto como cuidava de uma maneira verdadeiramente excepcional da filha, que nascera à pouco, pensámos que seria particularmente indicada para encorajar também as outras mulheres a ocuparem-se dos filhos recém-nascidos ou para lhes ensinar a desmamá-los melhor.
Hoje, a Alice é um exemplo para muitas mulheres do nosso programa. A sua filha fez o teste e é uma das muitas crianças que se tornaram negativas. O seu exemplo está a dar coragem às gestantes porque demonstra que é possível ter um filho seronegativo. A autoridade de Alice não provém da sua idade – é uma das activistas mais jovens que temos – mas porque se quer empenhar a sério para salvar vidas. É isto que a torna tão boa e preciosa, é isto que a torna numa ponte de esperança entre os pacientes e nós.
 
Qual é o trabalho que se faz num centro DREAM no que se refere à prevenção materno-infanti?
 
É desde 2004-2205, desde que o programa DREAM começou no Malawi que insistimos sobre o facto de uma mulher grávida seropositiva poder dar à luz uma criança seronegativa. A pacto que ela comece logo a terapia.
Mas, apesar de o termos sempre dito, apesar de termos insistido muito, no início não foi fácil convencer as gestantes que encontrávamos. Não havia provas a apoiar o que se afirmava: nenhuma criança, até então, tinha feito o teste e tinha resultado negativa.
O grande passo para a frente realizou-se quando algumas mulheres começaram a confiar. A confiança delas fez com que começassem a assumir correctamente a terapia antiretroviral, amamentassem os próprios filhos até aos seis meses de vida como lhes tinha sido dito e depois os desamamentassem. Todas as gestantes que respeitaram escrupulosamente as prescrições dos médicos tiveram uma criança perfeitamente sã.
Estas crianças foram os exemplos de que precisávamos. É graças a elas, ao facto de estarem bem, que se pode dizer a muitas outras mulheres, às vezes mesmo desesperadas, que se assumirem fielmente todos os medicamentos que lhes foram receitados, de manhã e de noite, o filho não terá nenhum problema.
 
Em que é que isto tudo te faz pensar, olhando para hoje, mas também para o futuro de DREAM?
 
O futuro de DREAM – segundo o meu modo de ver – é o de se radicar cada vez mais de modo capilar em todo o Malawi, o de abrir muitos centros em muitas aldeias, de modo que muitas pessoas como a Pacem, a Verónica, a Alice, possam ter acesso à esperança e à terapia. É este, de resto, o empenho que DREAM já está a levar adiante, precisamente neste momento.
Mas, veio-me agora à cabeça – pensando no presente e no futuro de DREAM, mas também no seu passado, e partindo da nossa conversa sobre a prevenção materno-infantil – no facto de que há uns dias, organizámos uma festa para celebrar juntos um grupo de crianças que resultaram negativas ao teste.
Foi, para muitas mulheres, um dia muito lindo, a demonstração de que fizeram bem em iniciar a terapia, um prémio à confiança e à coragem delas (porque algumas mulheres, infelizmente, ainda hoje decidem afastar-se, não aceitando iniciar a terapia). Foi – aquela festa – a celebração de uma vitória da confiança. Muitas mulheres devem ter dito: “Efectivamente, combati duramente, dei o meu melhor para salvar a vida do meu filho; e, na verdade, ele não contraiu o vírus, está livre!”. Há uma força verdadeiramente linda, plena, nesta confiança, nesta alegria.
E, então, penso em mim, mãe de uma criança que é seropositiva. Há alguns anos foi, na verdade, difícil para mim. Mas, há dias, festejei com alegria, juntamente com as minhas amigas, porque os filhos delas se tornaram negativos. Quando estava grávida, não havia as possibilidades que havia hoje, o programa DREAM ainda não estava assim tão radicado… Mas, agora que o programa DREAM está aqui connosco, deveremos lutar em prol das muitas mulheres e das muitas crianças, pela vida delas.
De resto, DREAM é uma garantia de vida também para os nossos filhos seropositivos, porque são tratados, recebem a terapia e uma boa assistência. Graças à Comunidade de Sant’Egidio sabemos que os nossos filhos terão um futuro, que ainda há vida para eles, que para eles tudo é possível.
Portanto, é a mesma coisa, devemos festejar as crianças que se tornaram negativas e as que, apesar de continuarem positivas, gozam de vida e de saúde. E devemos estar cientes de duas coisas: da força de muitas mulheres, porque fizeram verdadeiramente muito pelas próprias crianças e da força de amor de DREAM, porque o nosso trabalho melhorou deveras e, podemos dizer, obtivemos grandes sucessos.
Quando vejo alguns pacientes que estão verdadeiramente mal ou desesperados, recordo-me dos primeiros momentos, quando também eu tinha chegado muito doente, para a consulta, ao centro DREAM. Então, o que posso desejar a estes pacientes – com grande consciência, com grande sinceridade – é que se possam tornar como eu sou hoje. E, relativamente ao sofrimento e ao desespero que eles vivem, desejo que deixem de os sentir. De modo que, tal como nós estamos a festejar e a saborear os bons frutos de DREAM, possa suceder o mesmo também a eles. Que possamos gozar todos juntos, porque, na verdade, DREAM acolheu as nossas vidas, deu-nos tanto.
Possam então, todos os pacientes que hoje estão mal, erguer-se e testemunhar e lutar pelos outros. Porque não vejo o motivo pelo qual, muitos no Malawi devam morrer quando há uma terapia disponível, quando há uma possibilidade de uma maior assistência para eles. Assim, tudo o que eu sei, é que nós podemos e devemos lutar por eles.
 
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