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A história com um final feliz de um menino de rua

Publicamos a história do Francisco, tal como nos contaram a Josefa, a Júlia, a Fátima e a Odete, activistas do centro nutricional DREAM da Comunidade de Santo Egídio da Beira, em Moçambique.

DSC09376“Conhecemos o Francisco* em Junho de 2015 quando ainda era um menino de rua e no centro nutricional da Beira começámos a acolher as crianças e os adolescentes que viviam nas praças do centro da cidade.
A rua é uma realidade muito dura para demasiadas crianças na Beira: quando ficam sem família, muitas vezes são abandonadas a si mesmas e deambulam pelas ruas mal vestidos, cheios de fome e expostos a todo o perigo. Questionámo-nos sobre o que poderíamos fazer por eles e, assim, começámos a dar-lhes a possibilidade de tomarem banho, mudarem de roupa e comerem uma refeição completa. Não foi fácil porque a vida da rua endurece e torna desconfiadas até mesmo as crianças, mas a ternura e o senso materno acabou por conquistá-las. Tudo começou com um boca a boca e o centro nutricional tornou-se cada vez mais numa casa e num ponto de referência que acolhe e ajuda mas, sobretudo, que escuta e acompanha nos momentos difíceis.
Nalguns casos, até conseguimos reencontrar a família de origem e a tirar os meninos da rua.
O Francisco é um deles e a sua história merece de ser contada. Nasceu na localidade de Nhamatanda na província de Sofala; eram sete em casa: duas irmãs mais velhas, dois irmãos, Francisco e a mãe e o pai. Como muitas vezes acontece em África, os mais novos ficam bem cedo órfãos de mãe e o pai, incapaz de acudir as crianças procura algum parente a quem confiá-las; no fim, acabou por deixar as duas meninas a uma tia de Nahmatanda, mas abandona os rapazes, certo que eles desenrascar-se-iam sozinhos. Assim, abandona os três rapazes em três diferentes cidades da província.
O Francisco tinha 7 anos e ainda recorda muito bem aquele momento terrível: ele e o pai que chegam à noite na praça principal, ele que se sente perdido e assustado numa cidade grande e desconhecida como a Beira e o pai que lhe diz para esperar o seu regresso e que se vai embora. Após cinco anos, quando o conhecemos, Francisco tinha 12 anos e nunca mais voltou a ver o pai nem os irmãos.
Cinco anos nas ruas da Beira são muitos, cada dia é uma incógnita, vagueias pela cidade, procuras alguma coisa para comer, pedes esmola aos transeuntes, mas é uma luta diária e o Francisco conseguiu vencê-la todos os dias durante 5 anos.
No entanto, em finais de 2015 acontece algo de inesperado que levará o Francisco para casa.
Beira, Centro polivalenteAo longo dos anos, o Francisco faz amizade com os outros meninos de rua, pede esmola e há quem pare para falar também com ele; assim, conhece um rapaz de Nhamatanda, que está na Beira por um breve período. Quando este rapaz regressa a casa conta aos seus amigos de um menino originário precisamente de Nhamatanda que vive na miséria na Beira. A história circula de boca em boca e como nas pequenas aldeias todos se conhecem, a notícia chega aos ouvidos de uma das irmãs do Francisco que tinham ficado com a tia.
Apesar das dificuldades económicas para enfrentar a viagem e aventurar-se numa cidade desconhecida, a irmã decide partir para ir procurar esta criança para verificar se, por acaso, seria o irmão de quem se tinha perdido o rasto. É uma ténue esperança, mas não perde o ânimo e parte para o procurar.
Chegada à Beira apercebe-se, no entanto, que a cidade é grande e encontrar o Francisco não é simples; tenta informar-se, procura em todos os lados, mas não o encontra. Após três dias de buscas está para abandonar as esperanças, quando algumas pessoas lhe indicam o centro nutricional da Comunidade de Santo Egídio, pois ali, muitos meninos de rua têm uma refeição e um espaço acolhedor; porque não tentar perguntar-lhes?
Então, dirige-se imediatamente para o local que lhe foi indicado, entra e começa a contar-nos a sua história. Enquanto está a falar connosco o seu rosto muda de expressão, pára e chama: Francisco! O Francisco tinha acabado de chegar para almoçar, estava distraído, mas volta-se imediatamente e reconhece a irmã; já não era uma criança, mas era mesmo ela. É difícil descrever a comoção de todos ao verem os dois a abraçarem-se e apertarem-se entre as lágrimas e os sorrisos, mas felizes por se terem reencontrado após 5 anos.
Todos participámos nesta alegria no centro, porque o Francisco pôde regressar a Nhamatanda com a irmã e agora mora em casa com ela: já não é um menino de rua, mas um adolescente que vive com a sua família na sua aldeia.
Centro nutrizionale polivalente 2011, bambini cibo (1)A história do Francisco é uma história dura, o abandono marcou-o profundamente, mas o acolhimento do centro nutricional e a determinação da irmã, salvaram-no fisicamente e começaram a curar-lhe a alma. Agora, o Francisco e a irmã querem procurar os outros 2 irmãos de quem não sabem nada; nós continuamos a acudir e a ajudar como filhos os meninos de rua que nos procuram: mais de 40 entre meninos e adolescentes a quem também estamos a ensinar a ler e a escrever porque nunca nenhum deles frequentou uma escola. Mas a maior esperança é a de arrancar todos eles da rua e encontrar uma família que os possa acolher.”

 *  nome de fantasia

Il centro nutrizionale all'interno del centro Polivalente DREAM di Beira, Mozambico

Centro Polivalente DREAM. Beira, Moçambique

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