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Category Page: Malawi

Os laboratórios DREAM: a qualidade ao serviço de todos

Há já muitos anos que é universalmente reconhecida a importância dos laboratórios clínicos em África para efectuar um diagnóstico fiável e uma monitorização eficaz das principais doenças difusas na Região. DREAM foi um dos pouquíssimos programas que, desde o seu início, promoveu a utilização dos laboratórios, em particular, de biologia molecular. Com efeito, desde o início, ao lado dos centros de tratamento, foram equipados laboratórios de diagnóstico avançado em todos os países africanos onde DREAM está presente. Os laboratórios são geridos por pessoal local, formado e constantemente supervisionado e actualizado com programas de formação contínua. Há alguns anos para cá, para reforçar a qualidade dos serviços de laboratório, o Departamento Regional para a África da Organização Mundial da Saúde (WHO Afro), em colaboração com os seus parceiros, incluída a African Society for Laboratory Medicine (ASLM), promoveu o programa SLIPTA (Stepwise Laboratory Improvement Process Towards Accreditation). Trata-se de um processo gradual de melhoria da qualidade da prestação dos laboratórios da região, com vista a serem acreditados em conformidade com os standards internacionais que, para os laboratórios clínicos, são regulados pela norma ISO 15189. Isto é, os laboratórios devem desenvolver e documentar a própria capacidade de detectar, identificar, responder prontamente e referir sobre as doenças que podem ter um impacte sobre a saúde pública de que se ocupam. Por isso, todos os laboratórios públicos ou privados que trabalham sem fins de lucro em coordenação com os sistemas de saúde nacionais, fornecendo suporte no diagnóstico das principais patologias em África, são submetidos a regulares auditorias e são avaliados com um sistema que, combinando todos os aspectos relevantes, desde a gestão da documentação à intervenção, passando pela biossegurança, a manutenção e a gestão dos aparelhos e muito mais ainda, atribui uma pontuação de uma a 5 estrelas com base no resultado obtido pelo conjunto das prestações do laboratório, na base de uma lista de controlo que reflecte a norma ISO 15189-2012. Este programa está activo no Malawi desde 2013 e os laboratórios do programa DREAM de Balaka e Blantyre no Malawi, em termos de qualidade de laboratórios que participam na monitorização da carga viral (VL) e do diagnóstico precoce da infecção em recém-nascidos expostos (EID), foram incluídos no processo. Actualmente, no fim de um longo percurso de melhoria da qualidade, foram auditados e alcançaram respectivamente uma graduação de 85% e 89% correspondentes a 4 estrelas, resultando os melhores do País. Obrigado ao empenho e à decisão do pessoal dos laboratórios e ao apoio de todos os colegas de DREAM Malawi que permitiram alcançar um tão lisonjeiro resultado!

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Finding the right balance

THE SUNDAY TIMES

Malawi, January 28, 2018

By Cliff Kawanga

At the height of hunger crisis few years ago, a lot of people cried for support.
Despite a lot of cassava or sweet potatoes in their household, some of them still lined up to receive free maize that the government was distributing. In a year when maize had failed, the farmers indeed had cassava and sweet potatoes as options. It is not quite surprising that in Malawi, food is nsima and those who claimed to have no food actually meant they had no maize from which fl would be made.
The many interventions in Malawi – which have lessened the burden of HIV and Aids – are founded on the availability and uptake of life-prolonging drugs.
An important aspect of such interventions is nutrition which, according to Dream Programme, should be embraced by all the stakeholders in the health sector as well as traditional leaders and the communities.

Dream Programme’s Country Coordinator Roberto Lunghi said nutrition is a key component in addressing the challenges in the health sector.
“This is where we should start from. We need to impart this knowledge about nutrition and we believe every stakeholder will play a role moving forward,” said Lunghi on the sidelines of nutrition training organised by Dream Programme in Blantyre last week. The training attracted participants from Dream Programme centres across the country and district health facilities.
Dream’s National Nutritional Coordinator Dyna Tembo said there is need to look at the nutrition side in the course of implementing other activities.
“Eating well is key to maintaining strength, energy and a healthy immune system. In addition, because HIV can lead to immune suppression, food safety and proper hygiene are concerns when it comes to preventing infections. This is the reason we gathered here to share the emerging issues based on the evidence from the communities in which we work,” Tembo said.
She emphasised that although focussing on the right food quantities is very important, food safety is crucial.

“You cannot talk about nutrition while ignoring hygiene. We urge our clients to follow the few basic safety rules when preparing and eating meals,” Tembo said.
She said the knowledge the participants acquired is key in meeting some of the targets set.
“Expert clients play a very important role because they are in direct communication with the patients. They follow up on patients and visit their homes when they miss appointments.
“Most importantly, the expert clients are involved in homecare. For patients who have problems with drug adherence or have poor nutrition conditions, the expert clients go to their homes, spend time with them to learn how they prepare their food, to see the hygienic conditions in the homes and then teach them on the correct ways of food preparation,” Tembo said.
One of the participants was Dowa’s Assistant District Nutrition Coordinator Precious Mlotha who said patients’ nutritional needs are assessed before meeting the doctors. “What we are doing in Dowa is quite remarkable. Regardless of the type of disease one is suffering from, we believe assessing the nutritional needs will go a long way in promoting healthy living in the communities,” he said.
He said that people might have a lot to eat but there is knowledge gap which they want to fill.

“We have learnt a lot and if we work together, we will soon count the benefi Everyone should own the initiative. In the past, the communities were at the receiving end but now they are actively involved,” he said adding that addressing nutritional needs is not the responsibility of the hospitals alone.
Another coordinator from Mangochi’s Kapire Dream Centre Alexander Mbewe said every food is important but there is need to consume the right quantities.
“Food helps the body to function properly. It is an important aspect in HIV/Aids because it protects the clients from HIV/Aids complications or opportunistic diseases,” he said. He said it was encouraging that most people appreciate the importance of good nutrition. “Few years ago there was a misconception that some diseases like diabetes or hypertension were for the rich only. This is slowly changing because people now understand that everyone can suffer from these diseases and good nutrition has proved to promote healthy living,” he said.
At the time the Dream Programme started in Malawi, the focus was on Drug Resource Enhancement Against Aids and Malnutrition with the aim of pulling resources together and enhance the fi against HIV and Aids.
After years of feedback from clients and efforts by the Dream Programme to do more, it was suggested that the neglected diseases, including non- communicable diseases, would erode the gains made in HIV and Aids interventions.
Dream now bears a wider meaning, Disease Relief Through Excellent and Advanced Means (Dream 2.0). With Dream 2.0, there is more focus on obesity which leads to cardiovascular diseases.
“Over-nutrition is as important as under-nutrition which poses the great threat to an individual’s health yet it is usually overlooked. So the training also focused more on over-nutrition,” Tembo concluded.

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O trabalho de DREAM com os Adolescentes no Malawi

É uma segunda-feira quente de Outubro e o Ak. sai do seu bairro sorridente, cumprimentando todos os seus conhecidos e gritando: “Vou para a escola! Viva! Vou para uma boarding school!”.

A Ivy e a Maureen foram buscá-lo de manhã cedo para o acompanhar a uma escola residencial que uma família italiana decidiu pagar-lhe.

O Ak. ainda não acredita; até ao ano passado não conseguia frequentar a escola, não tinha nada para comer, não tinha dinheiro para pagar o transporte e chegar ao centro DREAM…

Ele é um dos muitos adolescentes em tratamento nos centros DREAM e a Ivy e a Maureen, há mais de um ano, tinham notado que o seu tratamento já não era eficaz, pois não tomava bem os medicamentos, não respeitava as consultas e, portanto, quiseram entender melhor a sua situação.

Órfão de pai, abandonado pela mãe afectada por sérios problemas psíquicos, durante um determinado período de tempo viveu com uma tia mas depois foi afastado da casa com a acusa de ser uma criança feiticeira e de ter provocado a morte do pai. Assim, tornou-se numa das muitas crianças de rua que apinham os centros urbanos do Malawi. Com a ajuda dos operadores de DREAM fizeram-se numerosas tentativas de o reinserir em casa de alguns parentes mas, após alguns meses era novamente expulso, porque suspeitado de ser o responsável da má sorte da família, das chuvas escassas, das doenças ou dos problemas económicos. Há quem lhe dissesse abertamente: “é melhor que morras e vás ter com o teu pai no cemitério”.

A Maureen, uma das coordenadoras do centro DREAM de Blantyre, nunca deixou de procurar soluções e encontrou o apoio da irmã Matilde que começou a ajudá-lo: dá-lhe alguma coisa de comer no fim das aulas e, algumas vezes, acompanha-o às consultas e a retirar os medicamentos.

Os adolescentes são um dos pacientes mais problemáticos e muitas vezes, após um sucesso inicial na idade infantil, a terapia já não dá os resultados esperados devido à escassa adesão.

Nos centros DREAM no Malawi existem quase mil adolescentes em tratamento, muitos são órfãos mas também nos casos em que há famílias presentes e atentas, não é simples convencê-los a seguirem regularmente a terapia.

A adolescência é uma idade difícil em todas as latitudes, pois começa-se a tomar consciência de si, começa-se a projectar o futuro e não é fácil quando a própria vida está marcada pela SIDA contraída à nascença. Muitas são as questões que se apinham na cabeça dos jovens, tipo, como será a minha vida? Poderei casar-me? Ter filhos? Para que serve estudar se sou doente? Deverei seguir a terapia para o resto da vida? Questões complexas de se enfrentarem até mesmo para um adulto e que se tornam insuperáveis para um adolescente, sobretudo se não tem uma estabilidade afectiva e social que o circundam.

Muitas vezes, os pais ou os parentes encontram-se em dificuldade, não sabem como dizer aos filhos que são seropositivos. Às vezes, as mães sentem-se culpadas por terem transmitido o vírus aos próprios filhos e adiam, por ignorância ou sentido de inadequação, o momento de falar com franqueza e explicar os motivos da ministração quotidiana da terapia.

Enquanto forem crianças pequenas, a gestão é mais simples, basta uma desculpa, por exemplo, dizer “… estes são medicamentos para a anemia…” ou “… para prevenir a malária…” mas com os adolescentes, torna-se mais difícil.

Amiúde, os jovens vêm a saber por acaso do problema que têm, às vezes através de um colega da escola que se apercebe das regulares e frequentes faltas para ir buscar os medicamentos e começa a gozar com ele.

A adesão ao tratamento para os adolescentes é um desafio aberto em todos os países onde o HIV é endémico e, por esta razão, nos últimos anos nos centros DREAM do Malawi, iniciou-se uma profunda reflexão sobre a condição dos adolescentes seropositivos para se poder melhor apoiar estes jovens pacientes.

Após algumas lições com o pessoal sobre as características da idade da adolescência, fez-se uma análise específica de todos os pacientes entre os 10 e os 17 anos. A seguir, quis-se saber para cada um, se tinham sido informados e com que modalidade, sobre a própria situação e, nas reuniões sucessivas, os pais ou os adultos de referência foram ajudados e instruídos sobre a maneira de comunicar o diagnóstico aos próprios filhos.

Por exemplo, contar que na altura da gravidez o acesso universal ao tratamento não estava disponível e realçar que, de qualquer modo, os pais sempre cuidaram dos filhos, levando-os ao hospital para a terapia e ajudando-os a crescer, contribuindo, deste modo, a reconstruir uma relação de confiança entre os adultos e os jovens.

Para os casos mais difíceis que mostravam carga viral em crescimento após anos em que estas crianças gozavam de boa saúde e seguiam correctamente a terapia, foi decidida uma intervenção mirada seguida por um activista como ponto de referência e foram organizadas frequentes visitas a domicílio de suporte para toda a família.

A seguir, começaram os “sábados para os adolescentes”, em que parte do pessoal de saúde dos centros DREAM, em base voluntária, decidiu reservar o último sábado do mês à abertura do centro dedicando assim, um dia especial de actividade aos adolescentes. Ter um dia reservado aos jovens teve um efeito muito positivo, pois os jovens já não precisavam de perder um dia de aulas (aos sábados não há aulas) e estavam circundados por coetâneos, o que tornou o centro mais acolhedor e “à medida” para eles.

Aos sábados, os centros mudam de aspecto: centenas de rapazes e de raparigas “apropriam-se” dele. De manhã cedo até à hora de fechar, é possível encontrar os jovens a jogarem xadrez, à bola, a falarem entre si, a participar nos encontros de educação à saúde preparados pelo pessoal e a lancharem juntos.

Pertencer a um grupo, factor tão determinante nesta fase do crescimento, dá força, coragem, entusiasmo e vontade de viver. Às vezes, também os rapazes mais velhos que foram adolescentes de DREAM e que são um exemplo de histórias de sucesso social e terapêutico, são convidados a participarem nos sábados, como o caso de G e de F que se casaram recentemente. O G trabalha como electricista numa importante empresa do país.

Com o multiplicar-se dos sábados de DREAM cada vez mais rapazes e raparigas recomeçaram a procurar o centro, mesmo quando não tinham consultas marcadas. Adquiriram a consciência de que não estão sozinhos a enfrentar a difícil condição de seropositividade e nasceram amizades muitas lindas. Este grupo também favoreceu a recuperação dos jovens com situações sociais mais desfavorecidas como o Ak.

Do estar juntos, de pertencer a um grupo, a uma família onde se sentir acolhidos, faz amadurecer novas ideias e ocasiões de amizade, como a proposta feita por T e R que há muito desejavam dar um passeio para verem os animais da savana que povoam o Malawi. E assim… durante alguns meses foram pondo de parte algum dinheiro para poderem pagar o transporte até ao parque de Chickwawa no Sul do país… prepararam-se sandes para um almoço em comum… uma ajuda para obter uma entrada no parque a um preço mais baixo e… no dia 4 de Novembro, 75 jovens foram passear juntos à descoberta do próprio país que certamente amanhã será um país melhor, graças também ao contributo deles na construção de uma sociedade mais humana e inclusiva.

 

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DREAM OPEN DAY no Malawi

O papel do diagnóstico de laboratório na gestão do HIV e da comorbidade na era dos objectivos globais 90-90-90

Realizou-se, no mês de Agosto, o primeiro open day do centro DREAM “Elard Alumando” em Mandala, Blantyre, na presença do ministro da saúde do Malawi Atupele Muluzi e de muitos parceiros e colaboradores do programa DREAM no Malawi.

O dia foi a ocasião para apresentar a todos os stakeholders (agentes sociais) do programa DREAM as suas principais actividades, os recursos de que dispõe, seja em termos de equipamentos seja de recursos humanos, que pode colocar ao serviço do país e dos parceiros e os resultados que o programa pretende alcançar no próximo futuro.

Há muitos anos que DREAM está activo no Malawi, sobretudo na luta contra o HIV SIDA e, recentemente, alargou o seu campo de acção a outras doenças tais como as doenças cardiovasculares, o cancro do colo do útero, o diagnóstico e o tratamento da tuberculose, as hepatites e outras doenças não transmissíveis.

Com o evento de Agosto, quis-se mostrar como o programa pode contribuir no esforço que todo o país está a realizar para melhorar a saúde dos próprios cidadãos. Ao mesmo tempo, o evento foi ocasião para informar os participantes e aviar um debate público sobre alguns temas particulares, tal como o papel dos laboratórios na estratégia 90-90-90, o tema das resistências ao HIV e o papel dos laboratórios no tratamento das hepatites.

Nos seus 12 anos de actividade no Malawi, DREAM contribuiu de muitas maneiras na luta contra a SIDA, mas uma das suas contribuições fundamentais foi a criação de um network de laboratórios de biologia molecular. Portanto, foco do evento foi o tema do diagnóstico e a sua função em enfrentar os desafios abertos. Por isso, todos os hóspedes mostraram um grande interesse durante a visita ao laboratório, efectuada pelo seu responsável, o Dr. Richard Luhanga.

O novo ministro da saúde, numa das suas primeiras visitas oficiais às estruturas de saúde do país, apreciou particularmente o facto que o evento, que se realizou num centro de saúde e não numa sala de conferências, tenha permitido o encontro humano com o pessoal do programa, não só os profissionais de saúde como técnicos de laboratório, médicos e enfermeiros, como também com pacientes e expert clients, coração pulsante das actividades de DREAM. Além disso, no seu discurso de saudação renovou a vontade do país em continuar a ser líder na inovação, e de o fazer juntamente com parceiros como a Comunidade de Santo Egídio e o programa DREAM.

O evento também foi uma preciosa ocasião para reforçar as relações com as principais organizações empenhadas no sector da saúde como a UNAIDS, a UNICEF, os CDC, a Clinton Health Access Inititative e as cooperações nacionais de vários países.

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Malawi: a primeira horta comunitária em Machinjiri

No dia 19 de Junho de 2017, no Centro Nutricional “João Paulo II”, foi inaugurada a primeira Horta Comunitária promovida pela Comunidade de Santo Egídio em colaboração com a Slow Food.

O projecto foi concretizado graças à iniciativa das Comunidades de Sichem e de Efraim de Olgiate Olona (VA) que, no passado dia 29 de Abril, organizaram, com a participação de um biólogo malawiano de DREAM, na Itália naqueles dias para um mestrado de especialização, um serão de recolha de fundos subordinado ao título: “4000 almôndegas para o Malawi”.

A realização desta primeira horta piloto na área de Machinjiri é uma solução concreta e sustentável para fazer frente à emergência fome e às dificuldades económicas que atingiram numerosas famílias da área. O início desta nova aventura foi sancionado por um curso de formação da duração de dois dias, ministrado por dois representantes da Slow Food no Malawi. Participaram 15 pessoas que, cultivando a terra, poderão sustentar as próprias famílias e melhorar as próprias condições de vida.

No primeiro dia do curso foram dadas as noções teóricas, e no dia seguinte, começou-se a preparar o terreno para a sementeira. A parceria entre a Comunidade e a Slow Food permitirá alcançar este objectivo de utilidade social de modo “Bom, Limpo e Justo”, paradigma da associação Slow Food que há anos trabalha em África em prol do desenvolvimento de hortas com a campanha “10.000 hortas em África”.

Particular atenção será dada à manutenção da biodiversidade das cultivações, valorizando as espécies de fruta e verduras locais e evitando a monocultura do milho, responsável em parte pelo problema alimentar, uma vez que necessita de muita água para crescer. Além disso, não serão utilizados pesticidas químicos nem sementes OGM, mas apenas métodos naturais de estrumação das plantas e sementes locais seleccionadas pela prática e pela sabedoria dos camponeses, amadurecida ao longo dos anos. A equipa de “novos camponeses”, formada por pessoas com idade e experiência de vida diferentes, pôs-se com as mãos à obra cheia de entusiasmo e unidade de propósitos. O nome escolhido para esta horta é: “Mbeu kwa Ufulu”, (que significa: Sementes de Liberdade)

Liberdade da terra dos pesticidas, das sementes OGM; liberdade das mulheres e dos homens deste maravilhoso país da fome e da falta de esperança. Sementes de liberdade que preparam um futuro melhor partindo de uma grande riqueza: a gente e a terra africana.

 

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DREAM 2.0: Prevenção e tratamento do tumor do colo do útero

Entrevista com a Doutora Hawa Sangarè Mamary, Coordenadora Nacional para a Prevenção e o Tratamento do Cervical Cancer para os centros DREAM da Comunidade de Santo Egídio no Malawi.

 

De 20 a 27 de Abril, realizou-se no Malawi, no distrito de Blantyre, uma campanha para a prevenção e o tratamento dos tumores do colo do útero. O evento teve uma grande ressonância no seio da população local e nos mass media.

Encontrámos a Doutora Hawa e pedimos-lhe para nos contar como é que correu a iniciativa e para nos explicar quais foram os resultados obtidos e os desafios para o futuro.

O cancro do colo do útero é um tipo de tumor muito difundido em África, em particular entre as mulheres seropositivas e que se pode prevenir utilizando a vacina (de rotina nos países ocidentais, mas ainda não difundido nos países em vias de desenvolvimento por causa dos custos) e que se pode curar facilmente se o diagnóstico for efectuado atempadamente, diagnóstico que se pode fazer graças a um rastreio de fácil execução.

 

D: Bom dia, pode-nos fazer uma sua breve apresentação e dizer-nos qual é o seu papel no Programa DREAM da Comunidade de Santo Egídio?

 

Dr. Hawa Sangarè

R: O meu nome é Sangare Hawa Mamary, sou um médico e trabalho com o programa DREAM no Malawi desde 2010 no centro Elard Alumando de Blantyre.

No meu trabalho com DREAM ocupo-me de muitas coisas: consulto e trato dos pacientes HIV positivos, em particular, sou responsável pelo programa de prevenção vertical para prevenir a transmissão do vírus do HIV da mãe para o filho (PTV) e dedico-me às mulheres grávidas e aos seus filhos que nasceram no programa e que são praticamente todos seronegativos, mas que seguimos até completarem os dois anos de idade.

Além disso, ocupo-me da monitorização e da supervisão nas estruturas sanitárias distritais onde DREAM colabora e sustém o Ministério da Saúde em matéria de HIV e de diagnóstico infantil precoce.

Um outro aspecto do meu trabalho é a formação das activistas (Expert Clients). Trata-se de pacientes que seleccionamos e formamos para seguir as novas mulheres que entram no programa através da Home Care e um programa de educação sanitária e nutricional capilar.

Também sou Coordenadora Nacional DREAM dos programas para a saúde das mulheres e, em particular, da prevenção e tratamento dos tumores femininos. Nos nossos centros, seguimos o rastreio contra o cancro do colo do útero através da inspecção visual do colo uterino, usando o ácido acético (IVA).

 

D: Qual é a difusão do cancro do colo uterino no Malawi e quais são as possibilidades de cura e de prevenção?

 

No Malawi, o cancro do colo uterino representa 45% de todos os tumores. Em 2010 o HPV Center da Organização Mundial da Saúde estimou que no Malawi cada ano, 3684 mulheres desenvolvem o cancro do colo uterino e, na falta de programas eficazes, muitas morrerão por causa desta doença. Infelizmente, os centros para o diagnóstico e tratamento são muito escassos e estão presentes apenas nas principais cidades.

 

D: Quais são as intervenções que DREAM tem activado para combater os tumores do colo uterino no Malawi?

 

R: O nosso programa baseia-se, prevalentemente, na prevenção e tratamento. Trabalhamos como parceiros do Ministério da Saúde e utilizamos a abordagem da única consulta (SVA: single visit approach) com a execução do lVA (visual inspection of the cervix) e crioterapia imediata nos casos em que é indicada. Este é um método eficaz e prático aprovado pelo Ministério da Saúde do Malawi e de muitos países africanos.

Além disso, DREAM, em colaboração com a Norwegian Church Aid apoia o Serviço Nacional de Saúde com a formação de pessoal médico, supervisão e fornecimento de materiais e equipamentos para a crioterapia nos distritos de Mangochi e Balaka.

 

D: Quando e porque começou a trabalhar na prevenção e tratamento dos tumores femininos?

 

Começámos este programa em Fevereiro de 2016. Esta ideia nasceu juntamente com a nova abordagem do programa DREAM que, desde 2016, se tornou DREAM 2.0. A ideia é a de considerar a saúde global dos nossos pacientes. Notámos imediatamente a elevada prevalência do cancro do colo uterino entre as mulheres HIV + e apercebemo-nos que os serviços existentes não eram capazes de chegar a todas as mulheres.

 

D: Como é que nasceu a ideia de dedicar uma semana especial para esta campanha?

 

R: Tivemos a ideia da Campanha depois de termos participado a um encontro onde se debatia sobre a implementação do rastreio no distrito de Blantyre. Durante a reunião emergiu que a maior parte dos centros de saúde rurais não tinham capacidade de efectuar o rastreio. Por isso, pedimos a vários parceiros para trabalharem connosco no distrito de Blantyre e organizámos clínicas móveis para efectuarmos o rastreio nas zonas rurais.

 

D: Quem é que colaborou na organização desta semana?

 

R: A lista é muito longa; antes de mais, tivemos numerosos encontros com o District Health Officer (DHO) de Blantyre, os vários responsáveis pelos diversos sectores sanitários, os chefes das aldeias e as Autoridades Tradicionais das áreas e com o pessoal dos centros de saúde rurais. O acordo e a colaboração deles era necessária para o bom êxito do evento.

 

D: qual foi o programa da semana?

 

R: A cerimónia de abertura realizou-se no dia 19 de Abril no Centro de Saúde de Chileka.

No dia seguinte, iniciámos as actividades de rastreio que se protelaram até ao dia 27 de Abril.

A intervenção foi sempre precedida por lições de educação sanitária para explicar a importância de se submeter periodicamente à prevenção e para favorecer a difusão desta mensagem.

Após as lições, seguia-se a actividade de rastreio.

Operámos em 9 lugares: Chikowa, Dziwe, Chileka, Chimembe, South Lunzu Machinjiri, Lirangwe, Makhata, Lundu e Ndeka. Todas as mulheres encontradas positivas foram direccionadas para os dois centros de referência para o tratamento, o hospital Queen Elizabeth e o centro DREAM Elard Alumando.

 

D: qual era o objectivo proposto e quantas mulheres foram examinadas?

 

R: O nosso objectivo era o de alcançar 1500 mulheres ao longo da campanha.

Na realidade, durante esta semana submetemos a rastreio 2731 mulheres (182% em relação à nossa previsão), 52 resultaram positivas ao IVA (2%) e tratadas com a crioterapia, 10 mulheres mostravam sinais de cancro no estádio 2 ou 3 e foram direccionadas para o tratamento cirúrgico (0,3%).

 

D: porque é que acha que a educação à saúde e estas campanhas são importantes?

 

R: A educação sanitária e a campanha que realizámos são importantes porque consciencializam a comunidade acerca dos riscos para a saúde e permitem, graças a um diagnóstico precoce, de intervir sobre esta patologia antes que se manifeste através dos sintomas e se torne difícil de curar, isto é particularmente importante nos países com recursos limitados como o Malawi.

Além disso, isso ajuda as pessoas a mudarem o próprio estilo de vida e a evitarem comportamentos de risco. No decorrer da campanha apercebemo-nos que muitas pessoas nunca tinham sido submetidas a rastreio por causa da falta de informações de como este tipo de tumor se desenvolve e como pode ser tratado.

 

D: Quais foram as reacções e os comentários das pessoas?

 

R: As mulheres estavam felizes e gratas por esta ocasião. Por causa da forte demanda que suscitámos, decidimos oferecer mais dois dias para o rastreio no Centro DREAM Elard Alumando. No último dia da campanha todos os lugares estavam cheios de mulheres. Recebemos pedidos para repetir o evento e muitas mulheres virão na próxima semana ao nosso centro para desfrutarem da rotina de prevenção que oferecemos dois dias por semana.

 

D: Como é que as instituições de saúde e os doadores reagiram?

 

R: A repartição do District Health Officer acolheu a proposta da campanha com muito entusiasmo. Alguns mass media fizeram gratuitamente publicidade ao evento.

A Cruz Vermelha ofereceu as cortinas gratuitamente para a realização das actividades. A Total Malawi apoiou-nos com a compra de alguns materiais necessários para o rastreio.

 

D: Quais são os vossos planos para o futuro e como estão a pensar em prosseguir com este programa?

 

R: Este ano, conseguimos cobrir 9 áreas e alcançámos muitíssimas mulheres, e muitas outras continuarão a procurar-nos nos próximos meses.

No próximo mês de Fevereiro (como se sabe, o dia 4 de Fevereiro é o Dia Mundial para a Prevenção do Cancro) o nosso plano é o de retomar o rastreio de massa em mais áreas rurais. Além disso, gostaríamos que a próxima campanha durasse 4 semanas.

É também fundamental formar outros centros e torná-los autónomos na execução do IVA. Também são úteis equipamentos clínicos móveis para alcançar as zonas rurais remotas. É importante aproximar os serviços de saúde de qualidade às pessoas.

Um nosso sonho também é o de poder subministrar a vacina HPV às adolescentes.

Para conseguirmos realizar os nossos planos, esperamos num maior apoio por parte das empresas, organizações não governamentais e doadores particulares.

Naturalmente continuaremos, como sempre, a efectuar o rastreio de rotina para todos os que se dirigirem aos nossos centros.

 

D: Quais foram os principais desafios na realização desta actividade?

 

Direi que o primeiro desafio foi o da sensibilização das mulheres, especialmente nas áreas rurais mas, de qualquer modo, foi um sucesso. Nalguns casos, terminávamos as actividades muito tarde devido ao grande número de pacientes presentes.

Um outro problema foi o breve período da campanha. A campanha atraiu muitas mulheres que se queriam submeter ao rastreio. Com adequados recursos teríamos podido prolongar a data.

Apesar disso, demonstrámos que é possível fazer muito. Em sete dias conseguimos visitar um número de mulheres que corresponde a 52% do total das mulheres examinadas em Blantyre ao longo de 2016.

 

D: Obrigado. Deseja acrescentar mais alguma coisa no fim desta entrevista?

 

R: Sim, gostaria, em particular, de dizer em nome das mulheres que vivem nas zonas rurais, um obrigado à Comunidade de Santo Egídio por ter possibilitado esta campanha e ter alargado o campo de interesse de DREAM à prevenção do cancro nas mulheres. Gostaria de agradecer os mass media pelo papel que tiveram em encorajar e mobilizar as mulheres. Estou grata também às instituições de saúde públicas e a todos os doadores e operadores que apoiaram as nossas actividades. E, também a vós, obrigada por esta entrevista.

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