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Uma história de Moçambique – Ser idoso em África: a geração que protege o futuro

Conhecemos a Joana, uma mulher moçambicana muito velha, desde o início da história de DREAM no Maputo.

 
Na verdade, começámos a frequentar a sua casa – ou melhor, a sua cabana feita de canas e barro – desde 2001, ainda antes da abertura de Machava, o primeiro dos centros DREAM em África, quando a Comunidade de Sant’Egidio ainda não tinha realizado em Moçambique nenhum ambulatório, nenhum laboratório……. Na altura, os tratamentos ainda não estavam disponíveis, havia tanto sofrimento e tanto desespero, apesar de se respirar já aquela amizade entre voluntários europeus e doentes africanos que depois se viria a concretizar e aperfeiçoar com DREAM.
 
Primeiro, conhecemos o Luís, o genro da Joana, o marido da sua filha Julieta. Já muito doente, o Luís foi o primeiro paciente que acompanhámos com uma atenta e fiel assistência a domicílio até ao fim, até è sua morte.
 
Depois do seu funeral, foi espontâneo mantermos aquele laço que tinha nascido com a sua família alargada, numerosíssima, sobretudo, porque também Julieta estava doente. Eis então que – ora um, ora outro – começámos a ir ter com a Joana.
 
A casa da Joana estava sempre cheia de gente, muitas mulheres, tantíssimas crianças e poucos homens. Entre todos ressaltava a Joana, como uma espécie de matriarca, como o verdadeiro ponto de referência dos filhos, netos e bisnetos. A razão era simples: a sua idade.
 
Uma idade desconhecida, uma vez que nem sequer a própria Joana sabia quantos anos tinha mas, certamente muito avançada. Eram pelo menos, umas oitenta as Primaveras da Joana, quando em África, já aos 40 anos se é considerado “velho”. Por isso, ninguém a chamava pelo próprio nome, todos a chamavam avó.
 
Visitar a Joana, em Matola Rio, não era simples. A viagem é bastante longa de Maputo cidade, cerca de uma hora de carro e o último troço é simplesmente uma longa pista de lama. A casa, por sua vez, é muito pobre, formada por dois ambientes que à noite, se transformam em grandes grabatos de canas e de tecido onde dormem uma quinzena de pessoas. A cozinha está fora, com uma grande panela onde se cozinham a nsima (papa de farinha de milho) ou o arroz. Não há água e nem sequer energia eléctrica. A casa de banho está pouco distante da cabana, feita por quatro paredes de canas cobertas com tecidos velhos e lisos.
 
Neste contexto bastante pobre, a Joana é uma mulher verdadeiramente especial. Quando nos via, levantava-se, sorria e começava a falar como um comboio.
 
Não parava nem sequer para respirar, mas o problema era que falava connosco em shangane, a língua que se fala no sul de Moçambique e não o português… Não percebíamos patavina…. Ou melhor, duas palavras, aos poucos fomos aprendendo também, nós: makinina, que significa medicamento e kanimambo, que significa obrigado.
 
Na verdade, com o tempo, Joana repetia cada vez mais as palavras makinina e kanimambo, à medida que a Julieta e outros quatro membros da grande família alargada desta avó moçambicana, submetendo-se ao teste do vírus VIH, resultavam positivos e entravam em tratamento no Programa DREAM.
 
Havia, pois um motivo, pelo qual a Joana falasse tanto de medicamentos… No chão, diante da sua cabana, deitadas nas capulanas – os tecidos típicos africanos como são chamados em Moçambique -, encontram-se ervas, raízes, sementes, patas de animais, pedras, conchas, ossos,…. enfim, os objectos mais estranhos, todos aí expostos, a secar ao sol africano. Era a própria Joana que os utilizava. Para “curar”. Na verdade, ela era uma curandeira, isto é uma “médica tradicional”. As pessoas chegavam a vir de longe para serem “curadas” por ela. Sempre fez aquele trabalho e era graças a ele que conseguia dinheiro para dar de comer a todos.
 
Pois bem, precisamente a Joana, esta curandeira tradicional, que tinha a “sua” medicina, tinha percebido aos poucos que a SIDA se trata só com os medicamentos de DREAM (ou com outros análogos, obviamente…) e por isso, seguia atentamente a filha e as outras pessoas da sua família em tratamento connosco para que tomassem sempre os medicamentos indicados e sempre à mesma hora. A Joana tinha visto morrer demasiada gente e, infelizmente, também filhos e filhas, netos e bisnetos (para estes, o tratamento antiretroviral, tinha chegado demasiado tarde), para não conhecer perfeitamente o valor incomensurável daquelas pílulas que podiam efectivamente curar e salvar.
 
Agora, em casa da Joana, moram 14 pessoas. Quase todas são crianças, entregues como muitas outras crianças africanas a um avô ou a uma avó, o único parente que tenha sobrevivido à terrível epidemia da SIDA. Muitas mães, muitos pais já faleceram e são os avós, como a Joana, a geração mais velha, a cuidarem dos mais pequenos, a protegerem o futuro, o futuro de inteiras nações. A Joana preocupa-se por eles, dá àquelas pequenas vidas tanto amor e espera que, pelo menos, no próximo ano, consigam frequentar a escola. Iremos ver como ajudá-los….
 
A história da Joana é – para nós – uma história emblemática.
Uma mulher idosa, que sofreu muito, que viveu na pobreza, que se entregou durante anos a um saber tradicional seguindo os laços parentais. Uma mulher que nunca se lamentou, mas que cerrou bem os dentes, que teve coragem, que se empenhou com todas as energias para vencer.
 
Uma mulher que carregou o peso de muitas dificuldades – e poucos foram os homens que a ajudaram ou apoiaram – das mais pequenas da vida de todos os dias às maiores da História, do colonialismo português, da terrível e cruenta guerra civil, da SIDA. Mas que, de qualquer modo, resistiu. Por si e pelos mais pequenos.
 
Esta mulher idosa é a Joana…, mas é também a África, o mais velho dos continentes (a humanidade nasceu naquelas florestas e naquelas savanas e todos nós descendemos de uma velha avó como a Joana, é a Lucy dos antropólogos ou é a Eva, se assim o quisermos), um continente que se confrontou com enormes dificuldades e que, de qualquer modo, soube revelar uma energia incrível, uma enorme reserva de vida e de força. A Joana é, por certos aspectos, a própria imagem da África. De uma África que resiste, que sabe mudar, se serve, até mesmo na idade, que não renuncia ao próprio futuro, antes pelo contrário, que o preserva com amor e confiança.
 
As mulheres em África são a África, sem elas, tudo seria impossível. Gerações após gerações, continuam a exercer a sublime e difícil missão de proteger e de transmitir a vida. A Joana entrega-se, para isso, às suas próprias forças mas, também aos seus novos amigos. Diz que não está cansada: ela está feliz, porque a sua família está a ficar boa. A Joana, a curandeira, faz publicidade a DREAM, à makinina que a ajuda no seu esforço de preservar a vida e o futuro dos seus entes queridos.
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Entrevista a Pacem, já activista DREAM e agora coordenadora do centro de Mthengo wa Ntenga (Malawi)

Como e quando é que encontraste DREAM?
 
Encontrei DREAM em Agosto de 2005. Depois de ter feito o teste para o HIV e de ter resultado positiva.
 
Na verdade, estava bem. Era o meu marido, na época, que estava muito doente. Tentei estimulá-lo para ir fazer uma consulta, encorajava-o, falava-lhe da importância do tratamento. Mas ele não queria, tinha medo. E então, decidi dar o primeiro passo, comigo mesma, porque amava a vida do meu marido. Era para o ajudar. Era uma maneira para lhe fazer entender que podia conhecer o próprio estado de saúde, que não era demasiado complicado, que não era um problema.
 
E, pelo contrário, aquela consulta foi, para mim, um choque, uma prova terrível. Resultei seropositiva, tinha a SIDA. Morreria em breve. Depois da consulta e do teste, a única coisa em que conseguia pensar era: “Este é o fim da minha vida!”.
 
Informei o meu marido acerca do meu estado. Não foi nada fácil e por outro lado, isso não o incentivou a ir ao médico, apesar de estar bastante mal. Além disso, compreensivelmente, ficou ainda mais assustado. Mas não me desanimei, não desisti. Continuei a encorajá-lo e a insistir. Tinha-me informado um pouco mais, aqui e além e, então, contei-lhe algumas histórias de pessoas com SIDA que tinham começado um tratamento e que tinham melhorado.
No fim, o meu marido aceitou em fazer o teste. Acompanhei-o à consulta e estava com ele quando lhe disseram que era seropositivo. Pobre homem, estava desesperado!
Começou então uma fase muito difícil na nossa vida. Problemas de saúde, problemas económicos…
 
O meu marido estava bastante doente e tínhamos de procurar o dinheiro para retirar o tratamento antiretroviral no hospital estatal, medicamentos que custam 2500 kwacha malawiani [ao cambio actual 11,50 euros]. Fazíamos o melhor que podíamos para poder salvar a vida do meu marido, mas não era fácil. Ainda mais porque no mesmo período, tinham-me dito que tinha de interromper a amamentação da minha filha (tinha uma criança que ainda nem sequer tinha um ano e estava a amamentá-la). Para mim, tudo isso foi bastante difícil de gerir. O que é que iria dar à minha filha para comer? Todo o pouco dinheiro que juntava servia para comprar os medicamentos para o meu marido.
Foi então que um dos médicos do hospital estatal me falou de DREAM. Arranjei coragem e falei-lhe da minha, nossa, situação: o facto de que já não conseguíamos, que precisávamos de ajuda. Então, ele indicou-me o caminho do centro DREAM.
 
O que é que te marcou mais de DREAM?
 
Antes de mais, o facto de ter sido muito bem acolhida. Não me parecia um hospital! Tanto o aspecto exterior, pela sua estrutura; como as pessoas que encontrei naquele dia, naquele centro um pouco especial, eram pessoas que se disponibilizaram me assistirem em tudo o que a minha condição de saúde pedisse.
Fiz a aceitação e marcaram-me as análises do sangue e as consultas médicas. A seguir, comecei também eu a tomar os antiretrovirais, tal como o meu marido.
Comecei então a deixar de ter medo dos encontros, das consultas. Encontrando médicos, enfermeiros, pacientes, todos bem dispostos para comigo, comecei a ter mais coragem, a estar mais serena. A pensar que deveras, o facto de ser seropositivo não era por si só uma condenação à morte. Apercebia-me cada vez mais que recebendo a terapia adequada, todos nós doentes podíamos ainda ter uma vida à nossa frente.
Mal comecei a seguir a terapia – ou melhor, após algumas semanas – senti em mim uma grande mudança. Dantes nem sequer conseguia trabalhar, nem sequer me podia ocupar da casa. Tudo me cansava, parecia-me um esforço enorme: estava cansada dia e noite. Por sua vez, os medicamentos começaram a restituir-me as forças, davam-me a energia para fazer o que devia fazer. Mas também, posso dizer, restituíam-me a confiança em mim mesma e nas minhas possibilidades.
Assim, quando também a minha filha fez o teste e resultou seropositiva, fiquei preocupada por ela – era óbvio, era natural -, fiquei preocupada por saber que agora na família estaríamos todos doentes, mas, ao mesmo tempo, não me senti desesperada. Tinha feito o counselling e, deste modo, sabia que se podia fazer alguma coisa, que não era o fim.
A minha filha estava mesmo muito mal, mas, também ela, mal começou a terapia, começou a melhorar, a brincar e a crescer normalmente. Não havia comparação com o passado.
Gostaria também de acrescentar – falando de mim mesma – que a mudança enorme que senti em mim em relação ao passado não era apenas algo de meu, de pessoal. Podia-se ver isso também de fora. As pessoas já não me reconheciam em relação ao passado, e admiravam – posso assim dizer – o espectáculo da minha transformação, o facto de que estivesse melhor. Isto é, não só o facto que estivesse melhor… Admiravam também o facto de ter conseguido sair do abismo onde tinha caído de modo assim tão espantoso ao ponto de ser capaz de dirigir aos outros palavras de esperança, de encorajamento, de força.
 
O que é que DREAM fez por ti?
 
Diria simplesmente que DREAM tirou-me do nada e levou-me até onde me encontro hoje, até ao que sou agora. No fim de contas, fiz uma experiência simples, mas extraordinária, fundamental: passei do nada da morte ao tudo da vida. Da vida para mim e para os outros.
E é como se DREAM tivesse combatido por mim, para que tudo isto sucedesse, para que em mim voltasse a correr a vida. DREAM restituiu-me a vida, voltou a dar-me a esperança, deu-me toda a coragem de que uma pessoa necessita. Ou, pelo menos, aquela coragem que estava à procura, aquela coragem que nunca tinha recebido, mas que descobri ter apesar de ser – e ainda o sou – uma pessoa seropositiva e, portanto, marcada pela fraqueza.
Toda a minha vida mudou por causa do programa DREAM. E é graças a uma mudança do género que ontem era uma activista e hoje sou uma coordenadora.
 
Qual é a importância dos activistas no âmbito de DREAM?
 
No programa, os activistas revestem um papel muito importante.
São os olhos e os ouvidos dos nossos centros, mas também as pernas e as mãos dos nossos pacientes. São os que colhem melhor – porque estão em estrito contacto com os pacientes – os problemas e os pedidos de quem se dirige aos nossos centros. E, ao mesmo tempo, são o instrumento mediante o qual os próprios pacientes podem manter um contacto contínuo com DREAM. Se nalgum momento aquele contacto se interrompe, os activistas tentam restabelecê-lo, indo ao encontro dos que deixaram de vir ter connosco, indo à procura de quem vive com dificuldades concretas, indo explicar melhor o que não está completamente claro.
É este o sentido do trabalho de educação sanitária que todos os nossos activistas desempenham tanto nos centros como a domicílio, tanto no counselling em Mthengo como nas aldeias das áreas rurais circunstantes. Os activistas estão ao serviço dos pacientes quando lhes ensinam alguma coisa, quando lhes permitem saber algo mais acerca da própria saúde, acerca dos medicamentos que tomam, acerca das consultas que devem fazer.
Na verdade, a educação sanitária é uma das coisas que muda a fundo a vida das pessoas e, portanto, dos nossos pacientes. Muitos deles nem sequer imaginam o peso que – no bem e no mal – a higiene pessoal ou as escolhas nutricionais têm na vida de cada um de nós. Muitos não sabem como é possível melhorar a própria dieta ou as condições higiénicas das próprias casas, mas, sobretudo, não imaginam como tudo isto pode ser determinante, de modo positivo, para a vida deles. Pois bem, tudo isso é explicado – e precisamente pelos activistas – no momento da aceitação no programa DREAM ou nos tempos de espera no centro. E tudo isso faz a diferença para muitíssimas pessoas. Fazendo educação sanitária, descobrimos que podíamos conquistar o interesse, a estima, o afecto de muitos pacientes.
 
O que é que significa ser um activista DREAM?
 
Ser activista DREAM significa dar um testemunho aos outros. Daquilo que viveste, daquilo que viste. Esta é a principal diferença entre quem é um activista DREAM e quem é apenas um paciente DREAM.
Quando dás um testemunho e este testemunho é eficaz, um paciente pode, na verdade, começar a acreditar que há um futuro, para ele ou para ela. Pode começar a ter confiança no facto de que se começa uma terapia, tudo correrá pelo melhor.
Por outro lado, devemos dizer que o testemunho que damos não é só para os pacientes. Dirige-se também às pessoas de fora, às que não estão doentes, de modo que possam mudar a própria opinião em relação aos seropositivos.
Acho que nos temos de pôr de pé. Mais ainda. Temos de testemunhar em voz alta o que temos dentro de nós, o que recebemos, o que assimilamos. Temos de dar claramente o primeiro passo, em primeiro lugar, diante de todos. De modo que também os outros possam dar um passo na nossa direcção.
 
Quais são as maiores dificuldades do trabalho de um activista?
 
Aqui no Malawi há ainda muitas crenças tradicionais nas aldeias, nas áreas rurais. Infelizmente, ainda há pessoas acusadas de “bruxaria”, por exemplo. Este é o primeiro e o maior problema.
Muita gente precisa de receber uma educação específica sobre o significado de seropositivo e da SIDA. Não acreditam que exista um vírus HIV. Julgam que se possa ser “enfeitiçado” por alguém. Que um “feitiço” te pode fazer adoecer, que pode haver alguém que te odeie de tal modo ou que obtenha uma vantagem com a tua morte que convença ou pague um “feiticeiro” para te enfeitiçar. Deste modo, na aldeia, se alguém adoece, não se pensa que possa ter sido infectado de algum modo, mas que outros tiveram inveja dele ou que pensaram poder apropriar-se dos bens dele depois da sua morte.
Uma ignorância do género sobre as verdadeiras causas de uma doença tem como primeira consequência o facto de, para se curarem, em vez de irem para o hospital, procurem um “médico tradicional”. Vão ter com alguém que te ajude a curar – assim se pensa – com métodos iguais e contrários aos dos “feiticeiros”. Esta é uma prática difusíssima. Tanto mais que os “curandeiros” estão em todas as aldeias e os hospitais não; e muito mais porque a medicina tradicional custa muito menos da farmacêutica.
Mas essa prática cria enormes dificuldades a quem tenta levar adiante a luta contra a SIDA – como por exemplo, nós nos centros DREAM -, porque faz com que não poucos pacientes cheguem aos centros de saúde ou a nós de DREAM, só quando já são extremamente problemáticos, quando estão, muito, muito doentes. Muitas vezes, na aldeia, a ideia de uma consulta no centro de saúde mais próximo é vista como a última possibilidade, a que se tenta só depois de todas as outras hipóteses se terem revelado becos sem saída.
 
O que é que se pode fazer para este mundo das aldeias?
 
Não há dúvidas, de que se pode fazer muito. E estamo-nos a empenhar neste desafio.
É para contrastar todo o problema cultural e de mentalidade que acabei de acenar que estamos a fazer uma grande campanha de educação sanitária, sobretudo nas aldeias próximas do centro DREAM de Mthengo. Por exemplo, na aldeia de Mpote, organizámos em colaboração com o chefe da aldeia, verdadeiras “conferências” ao ar livre para explicar às pessoas o que se sabe acerca do HIV, como pode ocorrer a infecção e como é possível estar melhor se nos preocuparmo-nos em nos tratar.
Essas lições produziram resultados importantes, acho eu. Registámos com alegria, depois de termos dado tanta educação sanitária, um número cada vez maior de pessoas que vêm das aldeias para fazerem o teste, para conhecerem o próprio estado de saúde, enquanto que antes das nossas lições, era bastante raro que alguém se apresentasse espontaneamente. DREAM salvou muitas vidas. Agora as pessoas das aldeias começam a perceber, a aperceberem-se. As crenças na “bruxaria” perdem terreno e muitos, agora, começam a confiar naquilo que pode, deveras, salvá-los.
 
Que tipo de educação sanitária fazem em DREAM?
 
Uma educação sanitária que envolva os pacientes. O nosso problema é envolver os pacientes.
Por isso, durante a educação sanitária, os pacientes podem intervir, discutir. É um grupo de trabalho – o nosso – onde os pacientes contribuem com as próprias dúvidas, as próprias preocupações, os próprios problemas. Interessa-nos que nos digam o que sentem, o que pensam…, por exemplo, quais são as coisas que deveriam ser melhoradas, ou se têm problemas para chegarem ao centro, ou ainda se são discriminados na aldeia.
Além disso, a nossa educação sanitária não é abstracta. Se vemos que alguns pacientes não estão muito interessados, que se distraem… pois bem, mudamos de argumento de debate previsto para aquele dia, porque temos de ter a certeza de que estamos a estimular todos e cada um para nos escutar. Ou então, mudamos a nossa abordagem, a nossa maneira de nos dirigirmos a esses pacientes. O nosso objectivo é fazer com que os pacientes percebam exactamente o que estamos a tentar explicar-lhes.
Ao fim e ao cabo, o nosso objectivo – como o de DREAM – não é só tratar o doente. Queremos conquistar os pacientes. Conquistar a atenção deles, a vida deles, deixar-nos envolver e envolvê-los numa esperança e num trabalho comuns.
 
Portanto, trata-se de algo mais do que uma simples educação sanitária?
 
Digo sempre às activistas com quem trabalho, que o esforço principal delas deve ser o de construir uma amizade forte com os pacientes que conhecem, porque para nós são mais do que simples doentes necessitados de assistência ou de orientação, são amigos!
Os nossos pacientes devem poder repor toda a confiança deles nos activistas. Devem poder saber que se dizem alguma coisa à activista, ela manterá sempre o segredo. Devem poder contar com ela – ou com ele – em todos os casos. Devem sentir que é ela – ou ele – que lhes pode dar esperança, que lhes pode dar toda a coragem de que necessitam, que os pode apoiar no momento da necessidade. Por isso, a primeira coisa a fazer é construir uma amizade mais forte.
Graças a essa amizade, muitos pacientes acabam por encarar de maneira muito diferente a própria condição de estarem em tratamento num centro DREAM. Percebem que encontraram uma família, além de medicamentos, que encontraram amigos com quem falar, mães, irmãos, irmãs. Percebem que encontraram alguém com quem poder procurar respostas e soluções às próprias perguntas e às próprias dificuldades. Juntos.
 
O estar juntos é uma característica de DREAM. Juntos com os doentes… juntos entre os activistas. Como é que nasceu e o que é o movimento dos activistas, “I DREAM”?
 
O movimento nasceu como “Women for a Dream”, Mulheres para um sonho. Nasceu da escuta dos pacientes, em particular das mulheres, como uma resposta a uma necessidade delas de estarem juntas, para se encorajarem reciprocamente. Nasceu da escuta da opinião delas, das considerações delas, solicitando a atenção do ponto de vista delas sobre as coisas e tentando, depois, ir ao encontro daquelas mesmas exigências que tinham emergido.
No início, tivemos um grande número de mulheres inscritas e poucos homens mas, com o passar do tempo, constatámos uma melhoria, isto é, um aumento da presença e, agora, também muitos homens participam no movimento.
Isto é um facto muito importante, segundo a minha opinião. É o sinal de que as pessoas estão a começar a entender do que realmente se ocupa o movimento, que está a começar a ver a utilidade e os seus frutos.
 
Mas como é que vocês agem, concretamente?
 
Antes de mais, trabalhamos muito nas aldeias. Alguém de “I DREAM” pede aos responsáveis da aldeia a licença para falar às pessoas reunidas em assembleia. A licença é concedida e é dali, desses encontros, que tudo nasce. Que nasce a particular relação que se estabelece entre DREAM e os seus activistas de um lado e uma determinada aldeia e os seus doentes, do outro.
Muitos contaram que foram tocados e encorajados pelos encontros que organizámos. O que para nós é motivo de orgulho, é sem dúvidas uma enorme responsabilidade – porque temos pacientes que provêm de cerca de cinquenta aldeias -, mas, gostaria de dizer que é também uma extraordinária oportunidade. Se numa aldeia tivermos uma dezena de pacientes, poderemos entender muito melhor a realidade daquela aldeia, saber muito mais sobre a sua dinâmica e as suas dificuldades, sobretudo sobre as dinâmicas e as dificuldades dos seropositivos naquela determinada realidade. Tudo isso, por sua vez, permite-nos poder intervir com mais eficácia, melhorar a situação, mudar uma atitude ou uma mentalidade que se consolidou, ou então, dar uma ajuda concreta às pessoas, aos doentes.
Porque o problema não é só fazer counselling mas, também e, sobretudo, dar ajuda quando alguém está doente. Se há uma rede DREAM numa determinada aldeia, saberemos imediatamente se naquela determinada área há um certo paciente que não está bem e, deste modo, poderemos ajudá-lo.
A coisa mais interessante é que são os próprios pacientes a activarem a ajuda para os outros pacientes. Mas, por outro lado, constatámos que os nossos pacientes querem, cada vez mais, serem envolvidos no trabalho de DREAM. Quando há uma iniciativa qualquer, querem ser informados e participar, como por exemplo, no dia 1 de Dezembro, quando se celebra a jornada mundial contra a SIDA. Muitíssimos dos nossos doentes dão-nos a entender ou dizem-nos expressamente que querem estar connosco, trabalhar connosco. Não querem receber só notícias de modo passivo, mas querem participar. Se, por exemplo, vem alguém de DREAM de fora, da Europa, para visitar o nosso centro, muitos pacientes oferecem-se para participar no acolhimento, para organizar tudo, etc.. Quero dizer com isso que os doentes não querem só ser informados se alguém está a chegar, mas querem agir concretamente.
Para eles, tudo isso significa viver um testemunho pessoal, significa mostrar a própria gratidão pela ajuda que DREAM deu a todos nós!
 
Imagino que este trabalho seja uma fonte de grande satisfação, uma vez que vocês tocam com a mão todos estes resultados…
 
O nosso trabalho é, na verdade, um conjunto de boas notícias, já hoje, mas também, diria, com vista no amanhã. Podemos tocar alguns resultados com as mãos, mas outros podemos entrevê-los para o futuro…
Os activistas de DREAM trabalham para mudar o futuro. Os homens e as mulheres que conhecemos põem em discussão o modo tradicional de olhar para as diferenças de género, porque se deixam envolver do mesmo modo, homens e mulheres, revelam-se igualmente interessados e empenhados. Põem em discussão, de um modo revolucionário, o próprio modo resignado e de espera de viver, porque eles mesmos estão prontos a darem passos para a frente, além de fazerem com que a própria aldeia dê passos para a frente, mudando em primeira pessoa a própria mentalidade e fazendo mudar a pouco e pouco a mentalidade tradicional que se respira nas aldeias.
É nesta perspectiva que muitos dos homens e das mulheres do Movimento declararam estarem prontos a assumir mais responsabilidades, a levarem cada vez mais DREAM para as próprias aldeias, além de levarem cada vez mais as próprias aldeias ao encontro de DREAM.
Testemunhando antes de mais o que a Comunidade de Sant’Egidio está a fazer por eles. Porque muitos desses pacientes vieram a Mthengo quando estavam mesmo doentes e, hoje, após todos os tratamentos e a ajuda de que necessitavam, estão muito melhor. Querem dizer tudo isto a todos os que encontram.
 
Tens alguma história para nos contar?
 
Posso-te dar o exemplo de uma activista, a Verónica, que vivia aqui na aldeia com a sua bicicleta, para seguir a terapia. Uma mulher que, na verdade, vinha de muito longe, mais de 25 km de distância [a história de Verónica está acenada também no vídeo “Viva a África viva!”, na homepage do sito DREAM].
Pois bem, depois de ter visto que a Verónica era uma das mais fiéis do programa, que era escrupulosíssima no que se referia à terapia, que nunca faltava às consultas, falámos com ela, e perguntámos-lhe se queria usar a bicicleta para cuidar de outros pacientes e salvar-lhes também a vida. A Verónica ficou muito entusiasta desta proposta que lhe permitia tornar-se útil, viver concretamente a própria gratidão, estar concretamente ao lado dos muitos que têm o problema de estarem demasiado longe do nosso centro de Mthengo ….
Uma outra das activistas de que te poderia falar é de Alice Mogomu. Depois de ter visto como cuidava de uma maneira verdadeiramente excepcional da filha, que nascera à pouco, pensámos que seria particularmente indicada para encorajar também as outras mulheres a ocuparem-se dos filhos recém-nascidos ou para lhes ensinar a desmamá-los melhor.
Hoje, a Alice é um exemplo para muitas mulheres do nosso programa. A sua filha fez o teste e é uma das muitas crianças que se tornaram negativas. O seu exemplo está a dar coragem às gestantes porque demonstra que é possível ter um filho seronegativo. A autoridade de Alice não provém da sua idade – é uma das activistas mais jovens que temos – mas porque se quer empenhar a sério para salvar vidas. É isto que a torna tão boa e preciosa, é isto que a torna numa ponte de esperança entre os pacientes e nós.
 
Qual é o trabalho que se faz num centro DREAM no que se refere à prevenção materno-infanti?
 
É desde 2004-2205, desde que o programa DREAM começou no Malawi que insistimos sobre o facto de uma mulher grávida seropositiva poder dar à luz uma criança seronegativa. A pacto que ela comece logo a terapia.
Mas, apesar de o termos sempre dito, apesar de termos insistido muito, no início não foi fácil convencer as gestantes que encontrávamos. Não havia provas a apoiar o que se afirmava: nenhuma criança, até então, tinha feito o teste e tinha resultado negativa.
O grande passo para a frente realizou-se quando algumas mulheres começaram a confiar. A confiança delas fez com que começassem a assumir correctamente a terapia antiretroviral, amamentassem os próprios filhos até aos seis meses de vida como lhes tinha sido dito e depois os desamamentassem. Todas as gestantes que respeitaram escrupulosamente as prescrições dos médicos tiveram uma criança perfeitamente sã.
Estas crianças foram os exemplos de que precisávamos. É graças a elas, ao facto de estarem bem, que se pode dizer a muitas outras mulheres, às vezes mesmo desesperadas, que se assumirem fielmente todos os medicamentos que lhes foram receitados, de manhã e de noite, o filho não terá nenhum problema.
 
Em que é que isto tudo te faz pensar, olhando para hoje, mas também para o futuro de DREAM?
 
O futuro de DREAM – segundo o meu modo de ver – é o de se radicar cada vez mais de modo capilar em todo o Malawi, o de abrir muitos centros em muitas aldeias, de modo que muitas pessoas como a Pacem, a Verónica, a Alice, possam ter acesso à esperança e à terapia. É este, de resto, o empenho que DREAM já está a levar adiante, precisamente neste momento.
Mas, veio-me agora à cabeça – pensando no presente e no futuro de DREAM, mas também no seu passado, e partindo da nossa conversa sobre a prevenção materno-infantil – no facto de que há uns dias, organizámos uma festa para celebrar juntos um grupo de crianças que resultaram negativas ao teste.
Foi, para muitas mulheres, um dia muito lindo, a demonstração de que fizeram bem em iniciar a terapia, um prémio à confiança e à coragem delas (porque algumas mulheres, infelizmente, ainda hoje decidem afastar-se, não aceitando iniciar a terapia). Foi – aquela festa – a celebração de uma vitória da confiança. Muitas mulheres devem ter dito: “Efectivamente, combati duramente, dei o meu melhor para salvar a vida do meu filho; e, na verdade, ele não contraiu o vírus, está livre!”. Há uma força verdadeiramente linda, plena, nesta confiança, nesta alegria.
E, então, penso em mim, mãe de uma criança que é seropositiva. Há alguns anos foi, na verdade, difícil para mim. Mas, há dias, festejei com alegria, juntamente com as minhas amigas, porque os filhos delas se tornaram negativos. Quando estava grávida, não havia as possibilidades que havia hoje, o programa DREAM ainda não estava assim tão radicado… Mas, agora que o programa DREAM está aqui connosco, deveremos lutar em prol das muitas mulheres e das muitas crianças, pela vida delas.
De resto, DREAM é uma garantia de vida também para os nossos filhos seropositivos, porque são tratados, recebem a terapia e uma boa assistência. Graças à Comunidade de Sant’Egidio sabemos que os nossos filhos terão um futuro, que ainda há vida para eles, que para eles tudo é possível.
Portanto, é a mesma coisa, devemos festejar as crianças que se tornaram negativas e as que, apesar de continuarem positivas, gozam de vida e de saúde. E devemos estar cientes de duas coisas: da força de muitas mulheres, porque fizeram verdadeiramente muito pelas próprias crianças e da força de amor de DREAM, porque o nosso trabalho melhorou deveras e, podemos dizer, obtivemos grandes sucessos.
Quando vejo alguns pacientes que estão verdadeiramente mal ou desesperados, recordo-me dos primeiros momentos, quando também eu tinha chegado muito doente, para a consulta, ao centro DREAM. Então, o que posso desejar a estes pacientes – com grande consciência, com grande sinceridade – é que se possam tornar como eu sou hoje. E, relativamente ao sofrimento e ao desespero que eles vivem, desejo que deixem de os sentir. De modo que, tal como nós estamos a festejar e a saborear os bons frutos de DREAM, possa suceder o mesmo também a eles. Que possamos gozar todos juntos, porque, na verdade, DREAM acolheu as nossas vidas, deu-nos tanto.
Possam então, todos os pacientes que hoje estão mal, erguer-se e testemunhar e lutar pelos outros. Porque não vejo o motivo pelo qual, muitos no Malawi devam morrer quando há uma terapia disponível, quando há uma possibilidade de uma maior assistência para eles. Assim, tudo o que eu sei, é que nós podemos e devemos lutar por eles.
 
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Entrevista a Lídia Lisboa, activista DREAM, Directora do Centro Nutricional de Matola 2, Moçambique

A minha história com DREAM iniciou no desgosto e agora está na alegria.
Em 2002 morreu o meu marido, o pai da minha filha Albertina. Pouco tempo depois também ela começou a estar muito doente. Muito. Tanto é que deixou de estudar: já não conseguia caminhar!.

Fomos de um hospital para o outro, mas era difícil encontrar um tratamento e eu não tinha muito dinheiro. No hospital, uma doutora disse-me que se tivesse dinheiro não seria difícil curar a Albertina. Mas eu não tinha todo esse dinheiro que me pedia, não podia ganhar bastante com os trabalhos que fazia habitualmente e era deveras improvável que alguém mo emprestasse. Desde que morreu o meu marido deixei de ter dinheiro.
A empresa onde ele trabalhava não me deu nada e ainda por cima, a sua família tinha ido a minha casa buscar tudo aquilo que tinha algum valor: não me deixaram quase nada! Estava muito preocupada: mesmo ter 10 meticais para o paracetamol da Albertina era um problema. Tentei até vender a casa onde morava para poder ter dinheiro para curar a minha filha, mas não consegui.

A única coisa que me ficava era a esperança. A esperança em algo que parecia impossível. E de repente alguma coisa aconteceu. A mesma doutora que me tinha falado da existência de um tratamento, embora caro, soube da abertura de um novo centro de saúde. Disse-me para me dirigir à Comunidade de Sant’Egidio. Eu não a conhecia, nunca tinha ouvido falar dela
Fui logo ao centro DREAM. Entrei com um pouco de medo, mas não houve nenhum problema. Albertina fez a aceitação e foi tirar o sangue. E disseram-nos que iniciaria em breve o tratamento. Estava tão feliz, mas era tudo tão estranho: tudo gratuito! Quanto entrei no centro e li “Não se paga” pareceu-me impossível. No entanto, toda aquela esperança que tinha cultivado um pouco contra tudo parecia não ter sido vã… Hoje posso dizer que a salvação da minha vida e a da minha filha foram-me literalmente oferecidas.
Mas a minha nova confiança, cedo foi posta à prova. Regressei quase logo a DREAM porque a minha filha estava muito mal: não conseguia sentar-se e nem comer. Desesperada, pedi aos médicos se podiam fazer alguma coisa por ela. Falei com uma operadora, que veio comigo à minha casa e decidimos levar a Albertina para o hospital. Fizeram-lhe transfusões de sangue e descobriram que tinha tuberculose. Graças aos tratamentos que recebeu no hospital, a minha filha melhorou rapidamente. Estava também muito anémica, mas conseguiu recuperar. Ficou dois meses no hospital de Machava e conseguiu fazer muitos amigos da comunidade que iam visitá-la. Ela sentia-se muito melhor, estava feliz por todas as atenções que recebia, desejosa de viver e de ficar boa.
Mal teve alta, a Albertina começou com o tratamento anti-retroviral. Desde então foi sempre melhorando, até que, em 2004, voltou para a escola e para as suas actividades normais. Agora empenha-se para realizar o seu sonho, continuar a estudar. Não quer olhar para trás e pensar no tempo perdido, ou resignar-se porque está doente. Não quer parar, quer ir para a frente nos estudos. Vencemos contra a doença e, portanto, podemos vencer contra tudo aquilo que encontraremos de agora em diante. 
No início, quando conheci DREAM, eu estava muito preocupada sobretudo pela minha filha. Estava tão mal! Também eu tinha feito o teste e sabia que era seropositiva, mas não estava tão mal como ela, sentia-me bem.
Mas quando a Albertina começou a seguir o tratamento e vi-a a aumentar de peso, a recomeçar a brincar, a retomar as actividades normais da sua idade, a crescer até à altura que tem agora, compreendi melhor o que queria dizer lutar contra a SIDA. Não se deve ignorá-la, deve-se enfrentá-la. O melhoramento da minha filha abriu uma estrada também para mim.
Também comecei o tratamento com os anti-retrovirais. Sofri um pouco de alergia no início, mas depois passou. Um comprimido de manhã e um outro à noite…. agora estou bem. E, a mais, tenho novas amizades, novas perspectivas.
Hoje a minha vida já não é a mesma, é melhor. Voltei a encontrar uma força e uma esperança que não tinha nem sequer antes da doença. Descobri energias novas, uma força de amor que me faz amar muitos, diria muitíssimos.

Hoje sou a Directora do Centro Nutricional de Matola 2 da Comunidade de Sant’Egidio. Todos os dias, no centro, comem cerca de 800 crianças. Crianças que têm fome de comida, mas muitas vezes também de carinho. São muitas as que me chamam mamã. Desejam ser acariciadas, ser escutadas, ser lavadas, ser vestidas. Para elas eu sou uma mãe. Para elas é lindo, mas também o é para mim. É uma realidade tão bela que até parece um sonho. É o sonho de amor que posso dar a muitos pequeninos.
As crianças, aqui em África, muitas vezes são os últimos. Não se consegue estar atrás delas, existem demasiados problemas. É necessário preocupar-se sobretudo pelo trabalho, procurar alimento e roupas necessárias para toda a família; e, portanto, brincar com uma criança, ter gestos afectuosos para com um menino, parece um pouco supérfluo. Mas aqui, nós queremos que não seja assim. Aqui, juntamente com outras activistas de DREAM, somos como muitas mães que querem amar e tomar conta destes pequeninos, sob qualquer aspecto da sua vida. Trabalhamos no Centro Nutricional, ocupamo-nos das adopções à distância. Conhecemos cada criança pelo nome, conhecemos a sua família e os seus problemas.
Nestes últimos meses conheci uma criança ainda melhor. Jerson foi abandonado, vinha sempre para o Centro Nutricional, em particular procurava por mim. Chamava-me “mamã”. Procurava um refúgio e uma defesa, porque tem uma doença na cara, está quase desfigurado, e então as outras crianças afastavam-se dele. Eu pensei: “Com a Albertina agora estamos bem, a nossa casa é pequena, mas não tanto que não possa acolher um menino”. E assim falei com a Albertina e decidimos levá-lo para a nossa casa. Hoje é como um filho para mim e um irmão par ela, estamos a tratá-lo e já está muito melhor. Ganhou peso, brinca e vai para a escola.
Ah, a propósito da escola… Eu também vou à escola, recomecei a estudar, à noite. Frequento o mesmo ano da Albertina, mas ela vai de manhã. É como se tivesse reencontrado uma nova juventude. Tenho a curiosidade de conhecer, perceber, estudar. Tenho um interesse cultural. E também isto devo-o à Comunidade: estive duas vezes na Europa, em Roma, e compreendi que o mundo é grande, que não é só a minha história e a do meu bairro.
A minha vida agora está cheia de amigos, de afecto, de tantas coisas e tenho o desejo de dividir estas riquezas com outras pessoas. Desejo ajudar muitas crianças.
Ajudando-as sustento e defendo o futuro do meu país, de um país que amo. Um país em paz que porém viveu a guerra, aquela guerra que ainda está nos meus olhos e nas minhas recordações. Quando penso nas coisas tristes da minha vida, penso sempre na guerra vivida quando era criança. E na doença da Albertina e da minha. Mas hoje em Moçambique há paz e também estamos a combater a SIDA e queremos continuar a combatê-la.
Eu estou bem. Mas não quero cultivar só a minha alegria. Esta alegria foi um verdadeiro presente, já o disse. Mas agora sou eu quem pode doar. Recebi grátis e quero dar grátis. Posso dizer que a minha história com a Comunidade ensinou-me justamente a beleza de doar, a beleza de dar esperança a muitos que ainda estão aflitos e vencidos pelo mal.

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Uma história da Tanzânia – A amizade dá vida ao futuro: a longa viagem de Hidaya da doença à esperança

Hidaya é uma mulher tanzaniana com cerca de trinta anos. Mas é também uma querida amiga de todos os operadores DREAM de Arusha, um exemplo de coragem e de força de vontade de cura para muitos pacientes do centro, uma prova de que o amor e a esperança podem abrir ao futuro e serem mais fortes da doença e do desespero.
Hidaya conheceu DREAM há pouco menos de dois anos atrás, quando a SIDA já tinha começado a marcar o seu rosto com o sarcoma de Kaposi. Tinha-se apresentado no centro de Arusha em silêncio, acompanhada pela mãe, uma mulher que nunca a abandonaria neste longo período de tratamento.
A casa de lama e de lata delas situa-se no bairro de Ngarasero, na periferia de Arusha. É o bairro que está mais perto do centro DREAM, no caminho para o aeroporto, o bairro donde provém a maior parte dos pacientes em tratamento com o Programa. Hidaya e a mãe tiveram conhecimento da possibilidade de tratamento, através de alguns pacientes, encheram-se de coragem e vieram ter connosco.


Hidaya estava muito doente. A SIDA tinha atingido um estado muito avançado. O sarcoma de Kaposi, juntamente com outras doenças oportunistas de que sofria, tinha-lhe devastado o rosto, impedia-lhe de deglutir, estava a prejudicar-lhe a vista.
O seu rosto era a imagem da fúria horrenda da SIDA, da sua maldição. Quando os olhares dos outros doentes, se pousavam nela, transmitiam plasticamente a ideia do estigma da doença, o medo quase físico de serem contagiados.
Diante da sua situação, tinha-se a impressão de uma doença verdadeiramente inexorável, que se encarniçava numa pobre mulher negando-lhe qualquer perspectiva de salvação. Qualquer pessoa ter-se-ia resignado à grande força daquela doença. Ter-se-ia rendido perante a aparente impossibilidade de fazer alguma coisa.
Mas a presença muda e sofredora de Hidaya no centro DREAM era um pedido que não se podia nem se queria iludir. Era preciso muita tenacidade e fantasia no amor. Era preciso ser paciente na dificuldade e fiéis na esperança. Era preciso acreditar que o bem, que a amizade, os tratamentos, pudessem manifestar uma força maior da do mal. Pudessem fazer regredir a doença.
O problema principal era a dificuldade de Hidaya de deglutir. Não só ingeria com dificuldade os medicamentos (era quase impossível ministrar-lhe os comprimidos) como tinha uma extrema dificuldade em comer. Estava num estado de contínua e profunda fraqueza, porque não se podia nutrir como deveria.
O primeiro passo foi o de mudar os medicamentos, de lhe ministrar os anti-retrovirais sob forma de xarope, os mesmo que se dão também às crianças (em quantidades maiores, obviamente). O segundo foi o de trabalhar para uma dieta pensada propositadamente para Hidaya, um regime alimentar possível, que lhe garantisse um suplemento nutritivo adequado e que lhe desse nova força. 
Mas depois, era preciso enfrentar o problema constituído por um sarcoma muito agressivo, que ameaçava atingir também os pulmões.
Infelizmente as suas hospitalizações não tinham dado até então nenhum resultado tangível. A terapia era sempre a mesma: faziam-se-lhe algumas radiografias, ministravam-se-lhe alguns soros. Os médicos estavam todos decididamente pessimistas acerca do seu diagnóstico e sugeriam abertamente aos operadores DREAM que iam falar com eles de não a internarem, pois já não havia mais nada a fazer.
Mas há sempre alguma coisa a fazer. Não se pode resignar assim à perda de um amigo. DREAM conseguiu entrar em contacto com alguns médicos que trabalhavam no hospital de Moshi, uma pequena cidade situada a cerca de uma centena de quilómetros de Arusha e que estavam disponíveis para intervir bloqueando, antes de mais, o avanço da doença com ciclos de quimioterapia e depois, removendo as formações cancerosas da cara de Hidaya com duas operações cirúrgicas.
É certo que também as dificuldades não faltaram. O sarcoma tinha efectivamente alcançado os pulmões. E, depois dos primeiros tratamentos de quimioterapia, os médicos tiveram de interromper por um certo período o tratamento, pois as condições de Hidaya, em particular a sua anemia, não permitiam de proceder rapidamente. Enfim, uma infecção na orelha tinha-se propagado até aos olhos fazendo com que deixasse de ver.
Mas Hidaya queria viver. Uma vontade grande, determinada. Que a levou a resistir e a perseverar até quando foi, finalmente, possível iniciar o tratamento cirúrgico. A primeira operação, há algum tempo atrás, resultou muito bem (os seus olhos recomeçaram a ver) e espera-se que a próxima seja ainda mais resolutiva.
O que marcou todos, no centro DREAM, na história de uma mulher que viveu e que vive uma condição tão difícil, tão desesperada, foi justamente a sua vontade de continuar com tenacidade a lutar contra o mal.
E, por sua vez, também Hidaya ficou maravilhada pela dedicação e pela tenacidade dos operadores de DREAM. Nela, força e coragem alimentaram-se cada vez mais, de maneira surpreendente, não só para que as coisas corressem melhor, mas também porque via crescer o afecto que a rodeava, porque ela era importante para alguém, porque o desejo de muitos era o de vê-la ficar melhor.
Na amizade e na gratidão que pouco a pouco se foram construindo com todos os operadores do centro de Arusha, Hidaya pediu com sempre maior convicção para ser ajudada. Nos seus olhos e nas suas palavras o sofrimento deixou pouco a pouco cada mais espaço à esperança da cura.
Ao desespero de uma vida que parecia não poder aguentar mais, substituiu-se o desejo e a certeza do futuro. A amizade e a esperança geraram efectivamente o futuro, materialmente. Fazendo surgir do nada aqueles dias e aqueles meses, também longínquos que cada um de nós “sãos” imagina naturalmente para si.
No início Hidaya nunca falava do amanhã. A quem partia dizia sempre que aquela era a última vez que se encontravam. Nos últimos tempos, pelo contrário, começou a fixar encontros também a longo prazo, seja com os amigos que voltariam depois de quatro ou cinco meses, seja com o cirurgião que em Janeiro terá de operá-la novamente para libertá-la definitivamente dos sinais da doença.

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Malawi – A história de Violet e de Faith, menina nascida sã de uma mãe seropositiva

Terça-feira, no centro DREAM de Mtheng wa Ntenga (Lilongwe), chegou Violet. Estava com Faith sua filha, que tinha acabado de fazer 18 meses.
Faith é uma das mais de 100 crianças nascidas no programa de prevenção vertical DREAM em Mthengo wa Ntenga. O seu nome, em inglês significa “fé”, e muito certamente, Violet, com o nascimento da sua quarta filha, que chegou quando descobrira há poucos meses ser seropositiva, quis confiar e confiá-la a quem podia ajudá-las, às duas, a ultrapassar a resignação e o desespero.
Violet tinha chegado a Mthengo wa Ntenga em 19 de Outubro de 2005. Queria fazer uma normal consulta de controlo no Antenatal Care. Um centro de maternidade – como a maioria dos centros de maternidade do Malawi – carente de pessoal e de meios. Na falta de recursos, nesses centros, limitam-se a controlar o peso da gestante e a prescrever alguns comprimidos de sal ferroso para tratar a anemia, muito difundida entre as pessoas que vivem em países onde o paludismo é endémico. De acordo com as normas em vigor no Malawi para prevenir a difusão da SIDA, é obrigatório efectuar também um teste para o HIV, mas muitas vezes, nas zonas rurais os kit necessários não estão disponíveis. Em Mthengo wa Ntenga, porém, graças ao suporte do centro DREAM, fazer o teste é possível.
Quando, durante a espera, a todas as mulheres foi explicada a importância de fazer o teste, Violet escutava com atenção. Há já algum tempo que não se sentia muito bem, tinha uma tosse estranha e persistente, febres frequentes. Certamente sentia-se perturbada ….. para uma mulher malawiana vir a saber que é positiva ao teste é um drama, cai-lhe o mundo em cima, num abrir e fechar de olhos toda a sua vida deixa de ser como dantes. Mal se espalha a voz que uma mulher é seropositiva todos começam a olhá-la de outra maneira, as crianças deixam de ir brincar com os seus filhos e não são poucos os maridos que abandonam as mulheres afirmando que são elas mesmo a causa do mal.

Naquele dia, porém, os operadores e as activistas de DREAM não se limitavam a explicar o que era o HIV e como se transmitia. Referiam também da possibilidade de tratar a doença e informavam que, seguindo bem a terapia, é possível para uma mulher seropositiva, dar à luz uma criança sã. Violet encheu-se de coragem e decidiu fazer o teste. 
E eis a resposta temida: o teste é positivo. São momentos terríveis, o futuro mete medo: “Como faço a voltar para casa? O que vou dizer ao meu marido? O que será dos meus filhos?”. Mas o encontro com DREAM ajuda, dá coragem, abre para uma nova esperança.
Depois do teste todas as mulheres positivas são acolhidas pelo pessoal especializado de DREAM em pequenos quartos bem cuidados e mobilados. Há tempo para falar sem pressas. Os doentes têm a oportunidade de expor os próprios receios, de escutar as histórias de quem já viveu a mesma experiência. Recebem conselhos práticos, sugestões sobre como explicar a situação aos próprios familiares. Oferece-se a possibilidade de encontrar e tratar também os parentes. Garante-se a disponibilidade gratuita de remédios, consultas médicas, exames de laboratório e – se necessário – assistência domiciliária e um pacote de alimentos. Numa palavra, assegura-se que alguém estará ao lado na luta contra o vírus, para ajudar no tratamento e no bem-estar.
Depois do colóquio Violet regressa para casa menos preocupada. Fala com o marido e depois com os outros parentes e após uma semana volta para o centro DREAM. Para começar o tratamento, para iniciar a prevenção vertical, para salvar a vida da criança que está à espera.
Dia após dia o medo e a angústia do início deixam espaço à confiança, à amizade e à serenidade que se respira num centro DREAM.

E talvez, por causa disso, no momento do parto, o nome da criança com mais de 3 kg que vê a luz, já está decidido: Faith. Esperança que ela possa estar livre da SIDA, que possa crescer feliz e que se possa tornar adulta num mundo menos injusto daquele onde o tratamento da SIDA está disponível só para uma pequena minoria de pessoas doentes.
No centro DREAM vimos crescer Faith de mês a mês. Veio regularmente, durante estes 18 meses, com a mãe, às consultas de controlo. Controlámos sempre o seu crescimento, o seu peso, demos à mãe conselhos para a higiene e para dar à criança uma boa alimentação durante e depois da amamentação.

 

Terça-feira passada, Faith fez 18 meses, a idade indicada para poder fazer o teste definitivo e estabelecer com certeza se no seu sangue está presente o vírus HIV. Violet apresentou-se pontual como sempre, com a sua criança, emocionada e elegante. As expectativas eram boas porque em todas as análises e os controlos efectuados durante este ano e meio, os resultados já mostravam que Faith não tinha sido contagiada, tal como os 98% das crianças que nascem no âmbito do programa DREAM.
Desta vez, entrar no quarto dos testes não foi motivo de angústia e, como previsto, o teste confirmou definitivamente que Faith é mais uma das crianças do centro DREAM de Mthengo wa Ntenga que nasce sã de uma mãe seropositiva. Depois do resultado do teste iniciou uma festa imprevista, Violet quis visitar todo o centro, mostrando a sua criança sã a todos os outros pacientes, ao pessoal e também aos técnicos de laboratório que permitiram, com o próprio trabalho, este pequeno milagre.
Depois, foi-se embora feliz, com Faith ao colo. A confiança de Violet de que a sua criança pudesse nascer sã foi, na verdade, bem depositada.
Mas a confiança continua a alimentar-se. Enquanto Faith cresce sã e robusta, também a confiança de Violet continua a crescer, na certeza de ter encontrado uma amizade infinita e de poder continuar a tratar-se, manter-se saudável e ver crescer os seus quatro filhos.


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Uma história do Malawi – Brilliant, o esplendor da vida

Vejo-o. Até que enfim saiu do hospital …. Pergunto-lhe como está e ele responde com um fio de voz e um lindo sorriso: “Estou bem, obrigado. Estou muito contente. E tu como estás?”. Respondo-lhe: “Bem também eu, obrigado! És muito gentil. Estou muito contente por te ver de novo”. Ele preocupa-se por mim, pergunta-me como me sinto!

Brillant diz que está muito contente. Contente de quê? Tem 14 anos, mas demonstra ter oito, está muito doente. É um nosso paciente, um pequeno paciente do centro DREAM de Blantyre no Malawi. Não anda porque quase que não tem músculos. É tão magro que os seus ossos, cobertos só por uma ligeira camada de pele, se reconhecem com facilidade. E são meses que tem diarreia e vomita.

Mas ele está contente. Saiu do hospital e veio ao centro DREAM para fazer as análises e tomar os medicamentos. Está contente, antes de mais, porque se sente melhor. E depois, porque sente prazer em voltar a ver quem o ama e o recebe com tanta ternura. Está contente também por esperar a sua vez para ver o doutor, o importante é não voltar para o hospital. Connosco, sente-se seguro. Não se lamenta de nada. Por fim, está contente por viver.

Chama-se Brilliant e é um milagre que esteja vivo. Assim diz Piero, um dos médicos italianos que acompanham o trabalho dos empregados malawianos de DREAM.
Aqui todos o conhecem e todos lhe querem bem. É muito conhecido no DREAM. Conhecemo-lo há alguns meses, encontrámo-lo quando já estava muito doente. Mas dedicamo-nos a ele com paixão. Hilda, uma activista do centro, segue-o em casa e no hospital. Fala com os pais, ajuda-os a terem esperança e diz-lhes sempre que Brilliant é esplêndido, que vale tanto ou mais de um brilhante.

Trabalhamos e rezamos para que possa continuar a viver, para que possa estar melhor. Oferecemos-lhe uma bola que deseja há anos. Gostaríamos todos de o ver jogar e correr atrás daquela bola. Hilda afirma que um dia Brilliant tornar-se-á o homem mais importante do Malawi e de todo o mundo…. Para nós, já o é.

Olhando para ele, o nosso coração parte-se em dois, mas ele, com o seu sorriso e a sua esperança volta a recompô-lo e dá-nos como presente um sentimento de gratidão e de alegria. É a alegria da própria vida. A Brilliant basta-lhe viver, a nós nunca chega o nosso bem-estar. Perante Brilliant e o seu lindo sorriso desejaria dizer com força e nunca esquecer que também a mim basta que ele viva.

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