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Category Page: Storie

Uma história do Malawi: A ressurreição de Edward

Edward regressa lentamente, com o coração cheio de desespero, para a sua casa na zona 25 da periferia de Lilongwe, a capital do Malawi.
Estradas de terra batida e poeirentas, filas de casas baixas, de barro ou de tijolos cozidos ao sol, a pobreza de sempre. Mas também, tanta gente, a vida que pulsa, homens e mulheres que andam, que falam, que riem. Edward, no entanto, não participa na vida que corre a seu lado. Está doente. Tem SIDA.
Agora, é um homem sem esperanças. Não tem trabalho, ele que quando era jovem teve a sorte de poder estudar e de completar a escola secundária, que teve um bom emprego como mecânico. É normal em África, quando se está doente, perder o emprego e, por consequência, também os amigos e a própria posição social. E, efectivamente, Edward não tem nenhum amigo. Aqueles de outros tempos, assustados pela sua condição, nem sequer o querem ver, têm medo. Os melhores entre eles sentem um pouco de compaixão.
Por isso Edward regressou para casa. É um bom lugar para morrer. Além disso, para onde poderia ele ir? Não tem mais nada a fazer. Na situação em que se encontra como poderá trabalhar? Como poderá sobreviver? O vírus infectou terrivelmente o seu corpo, tornando-o frágil e quase cego e só tem 38 anos.
Em breve não verá nada e não poderá nem sequer andar sozinho.
Edward descobriu em Abril de 2005 que tinha SIDA. Sentia-se muitas vezes doente, pediram-lhe que fizesse análises ao sangue….. e eis, o teste resultou positivo. Edward foi infectado com o vírus do HIV e o seu sistema imunitário estava já muito comprometido.
Uma terrível notícia. Mas Edward tinha lutado, não se rendeu. Conhecido o resultado das análises tinha procurado curar-se aproveitando do tratamento que o governo oferecia, com confiança tinha começado a tomar regularmente os medicamentos. Mas a sua condição não tinha melhorado ….. antes pelo contrário, piorava de dia para dia. E então, que mais poderia fazer se não regressar para casa para esperar a morte?
 
Mas a história de Edward não estava destinada a cruzar-se com a morte. Devido a um daqueles milagres que acontecem também em África a sua história cruza-se com um sonho de esperança, de cura, de vida.
Enquanto Edward passa todo o dia deitado na própria esteira, sem esperar nada nem ninguém, inesperadamente acontece qualquer coisa. Joseph, um seu parente afastado que no ano anterior tinha participado no Curso de formação de técnicos de laboratório do Programa DREAM, no Maputo em Moçambique, foi visitá-lo quando soube da sua doença.
Joseph, depois de ter frequentado o curso de formação, tinha começado a trabalhar no laboratório de biologia molecular do hospital de Mthengo wa Ntenga na periferia de Lilongwe. Aquele laboratório é o primeiro que foi aberto pelo DREAM no Malawi e é o único do país em que os doentes não pagam para fazerem as sofisticadas análises necessárias para monitorar e curar a SIDA. Joseph entrou em contacto com tanta gente e com tantos doentes: viu que, graças à terapia anti-retroviral, muitos pacientes voltaram a ter esperanças e forças, que a SIDA não é uma condenação à morte, mas uma doença que pode ser curada e mantida sob controlo.
Eis então que Joseph, vendo as condições de Edward, ficou impressionado (quase que não o reconheceu), dá-lhe o conselho justo, o de se dirigir ao centro DREAM de Mthengo wa Ntenga. Aí poderá ser curado, do mesmo modo como se curam os doentes de SIDA na Europa ou nos Estados Unidos e além disso gratuitamente. A Edward, como para os outros doentes mais fracos que não podem trabalhar, são fornecidas ajudas alimentares.

Edward deixa-se convencer pela conversa apaixonada de Joseph, pela sua perspectiva de cura e de dignidade restituída e decide enfrentar o esforço para chegar ao centro DREAM.
Não é fácil, tem de percorrer um longo caminho a pé e depois deve apanhar um pequeno autocarro. São cerca de 1600 kwacha para ir e voltar, mais do que um dólar. E Edward não pode com certeza enfrentar a viagem sozinho, está quase paralítico. Seria preciso, pelo menos, uma ou duas pessoas de boa vontade que se comprometessem a acompanhá-lo.
Mas a perspectiva de reencontrar a esperança vale tudo isso, Edward não quer mais deixar-se andar, agora que cultiva um sonho de tratamento e de vida.

Edward chega ao nosso centro a 31 de Outubro de 2005, ajudam-no a entrar para a sala de espera e depois é examinado. O médico manda fazer um exame ao sangue para poder programar a terapia e prescrever a cura para tratar as numerosas infecções que afligem o paciente.
Na verdade, Edward tem uma tosse terrível, causada pela tuberculose, lesões cutâneas no corpo e na cabeça, uma ferida na axila direita, que infectou e que terá de ser lancetada para drenar o pus, dores musculares que lhe impedem de andar sozinho e uma fraqueza generalizada. Apesar de ter mais de um metro e setenta, emagreceu tanto nos últimos meses que nem sequer pesa 50 quilos. Por isso recebe um suporte alimentar para estes próximos dias até à sua visita sucessiva.
No início, Edward vai ao centro de duas em duas semanas, precisa de um controlo médico muito intenso.
Dois meses depois, já começa a melhorar. No seu bairro quase que não acreditam, ele, recomeça a andar e a ver. Em Fevereiro veio sozinho às consultas, já não precisa de ninguém que o acompanhe.

Hoje, Edward é outra pessoa.
A meados de Março chegou ao centro DREAM orgulhoso por ter convencido a mulher a fazer o teste e a entrar no nosso programa de assistência. Recorda connosco a sua história, agradece-nos a terapia que lhe permitiu recuperar uma boa condição de saúde. Hoje vê o seu futuro com mais esperança e menos solidão, encontrou alguém que juntamente com ele combate a sua batalha pela saúde.
Conversamos longamente com a sua mulher. Contou-nos que até há poucos meses atrás não pensava que o seu marido pudesse salvar-se. Pelo contrário, tinha medo também por si mesma. Ele, quando começou a sentir-se mal, tinha várias vezes tentado convencê-la a fazer o teste, mas ela recusou sempre. Tinha medo, temia ver confirmada que a desesperada condição do marido pudesse um dia ser também a sua. Mas, pelo contrário, começou a ver que o seu marido melhorava de dia para dia, o medo começou a desaparecer e a deixar espaço à convicção de que é importante conhecer e enfrentar a tempo o resultado do teste, ainda mais se se pode ter a certeza, que no centro DREAM, se é seguido e acompanhado com carinho hoje e no futuro.
A mulher de Edward fez o primeiro exame ao sangue e voltou para casa com o marido. Vemo-los afastarem-se do hospital passeando pela rua do mercado que se encontra fora do centro. Estão ainda doentes, mas o seu passo é o passo de quem encontrou esperança, de quem voltou a sonhar. Andam juntos, tranquilos, em direcção a um futuro que se entrevê mais longo de quanto se poderia pensar só há alguns meses atrás.

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